
Dizem, seu moço, que a gente tem às vezes que se armar frente às intempéries que surgem na nossa vida. Eu até guardo uma lataria velha que me fazia proteger desse mundo doido, mas a coitada acabou enferrujando, sabe. Pois é, eu peguei toda sorte de chuva nessa vida minha de briguento e, de tanto me molhar por aí afora, acabei estragando o único escudo que me acobertou durante todos esses anos. Também, era cada roubada que só contando uma a uma mesmo pro senhor, mas deixemos isso prum outro dia.
Bem que minha mãe falava: “Não deixa sua armadura tão exposta assim ao tempo, meu filho. Me dê ela aqui, vai”, mas cadê que que eu escutava a Dona Bete? Ela gostava de ver minha prata tinindo de lustrada, mas eu relaxei mesmo com a pobrezinha. Agora Inês é morta e a armadura, perigosa. Sim, perigosa, não acredita? Arriscado até eu pegar doença com aquela ferrugem toda, Ave Maria, quero não. Um menino lá da vizinhança morreu de uma infelicidade dessa, credo em cruz, gosto nem de pensar.
Eu, pelo menos, sigo aí, vivinho da Silva. Mas não pense o senhor que, mesmo sem a armadura, eu virei um velho frangalho, vulnerável ao mundo, fracote que só. Descobri bem um jeito de me livrar dessas maleitas que insistem em nos chatear. Quero ver o senhor adivinhar como eu me resguardo, seu moço. O quê? Ficar trancado dentro de casa? Não, senhor, não precisa. Basta fazer isso aqui, ó: está vendo esse negocinho pregado no meu peito? Então, é um penduricalho que eu peguei na gaveta de minha mãe e passei a usar aqui comigo.
Ele vive pendurado em mim, mas quase ninguém vê. Só mesmo pra quem eu mostro ou, claro, quem quer atingir de cheio esse meu peito. Não querem me deixar em paz, é uma verdade, mas eles estão é lascados comigo. Porque quando vão mirar o alvo, em vez de atirar, ficam titubeando pra lá e pra cá, no vai-e-vem do penduricalho. Eu, claro, também faço o favor de me mexer bastante, que não sou besta, não é mesmo? E na hora de acertar, o danado do tiro passa longe de mim, de tão tonto que o trouxa ficou.
Não é fantástico? Pois foi meu pai que me ensinou. Isso mesmo. Eita homem de sabedoria! Eu lembro que, ainda garoto de calças curtas, ele me leu uma coisa no pé da cama que ficou marcada até hoje nessa minha cacholeta anuviada: “O amor só mente pra dizer maior verdade”.
Hoje posso não mais vestir a armadura de outrora, mas quem disse que estou à mercê da sorte?