30 abril, 2008

Armas e incêndios



Nunca tive a pretensão de ser bombeiro, nem no recôndito da infância, quando ser herói era sinônimo de honra e poder. Gostava era mesmo dos estratagemas montados diariamente, eu e meus bonecos inseparáveis, dos mais variados tamanhos, acessórios e vestimentas. Era com essas armas que eu inocentemente vestia naquela época.

[...]

Lembro-me da sensação de queimado por uma ou duas vezes. Engraçado, porque o que me vem à memória não é a recordação da dor ou as imagens da vermelhidão que marcou a pele. A lembrança mais forte é a do tempo que a mão encostou no forno até o primeiro “Ai”, segundos depois. Esse intervalo, em que a dor ia delimitando passo a passo seu território, é o que mais me marcou com o passar dos anos.

[...]

Já disse uma vez: não sou sempre esses fogos de artifício que muitos acham que espocam no céu. De qualquer forma, acho válido estar disposto a ajudar e dar a devida porção de amigo. Mas aqui eu confesso: detesto ter sempre que apagar o incêndio alheio, que não me pertence nem me diz respeito, mas que a mim surge de forma avassaladora, abafando na boca meu “não” diante da magnitude da chama. Preciso novamente me vestir das armas, sejam elas de Jorge, como canta a música, ou as dos meus bonequinhos de criança. Ou que seja ao menos um pano molhado, para ver se ameniza o calor dessas recentes e fortes emoções.



[Texto feito às pressas, em forma de desabafo, sem muito pensar]




27 abril, 2008

Às margens da alegria

Praia do Leme, Rio de Janeiro
[Foto: Google]


Em dias de nervosismo, quando penso que não deveria ter levantado da cama, o melhor é ir ao encontro do mar. É nas águas que eu desopilo um pouco os pensamentos esfumaçados pelos descontroles da mente. Lá eu faço minhas rezas, orações, agradecimentos e também alguns pedidos a quem de direito reserva às águas sua morada mais majestosa.

Seja na marola do raso ou nadando mar adentro, seja com ondas brandas ou mais revoltas, eu sempre me acalmo depois de um mergulho, com direito ao clichê “dos pés a cabeça”. Sim, porque eu gosto mesmo é de sentir as ondas passarem por todo meu corpo, como quem leva para a terra as maleitas e problemas criados por certas picuinhas a que nos apegamos. O azul acalma, dizem os colorimétricos. Eu reforço: o azul sublima os olhos e a alma.

Mas, em dias de ressaca no Rio de Janeiro, é preciso antes pedir licença para pisar sobre a bruma que sobra na areia, depois de uma sucessão interminável de ondas quebradas no horizonte. As águas são quase sempre imprevisíveis e tocam você sem prévio aviso. O corpo até responde depois, com certo cansaço e dores gostosamente suportáveis.

No mar, eu me sinto renovado. No mar, eu estou às margens da alegria.


[No iPod, de plantão no trabalho, escutando “Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite”, samba-enredo da Portela de 1981, lindamente composto e cantado por David Corrêa. Tempos depois, Bethânia o recupera em “Mar de Sophia”, numa versão que revigora a alma. Veja aqui ou confira a letra abaixo]



Deixa-me encantar
Com tudo teu e revelar (lá, rá, rá)
O que vai acontecer
Nesta noite de esplendor
O mar subiu na linha do horizonte
Desaguando como fonte
Ao vento a ilusão teceu
O mar, oi o mar, por onde andei mareou, mareou
Rolou na dança das ondas
No verso do cantador

Dança quem tá na roda
Roda de brincar
Prosa na boca do tempo
E vem marear

Eis o cortejo irreal
Com as maravilhas do mar
Fazendo o meu carnaval
É a vida a brincar
A luz raiou pra clarear a poesia
Num sentimento que desperta na folia
(Amor, amor)
Amor sorria, ôôô
Um novo dia despertou

E lá vou eu
Pela imensidão do mar
Esta onda que borda a avenida de espuma
Me arrasta a sambar





22 abril, 2008

Estofo



Sabe, seu moço, o estofo que vai revestir aquele assentinho antigo ali, velho mesmo? Então, faz três semanas que não está pronto. Um senhorzinho que mora naquela casinhola, lá em cima do matagal, sabe quem é? Então, noite vai, noite vem, ele toca sempre no assunto, falando sozinho de canto a canto da varando: “Cadê a minha cadeira? Eu quero me sentar! Quero descansar!”. Foi o que contaram na esquina.

Não se fala em outra coisa: onde está o raio da morada que aquele corpo já encurvado procura para suas horinhas de descanso? É essa cadeirinha aqui? Ave Maria, homem de Deus, corra logo com esse serviço! Virgem Nossa Senhora, deixa eu pôr a mão na boca pra dizer isso, tenho que falar baixo: o danado do velho tem fama solta de rogar mandinga por aí aos atrevidos que não seguem o ritmo dos seus quereres. E é coisa braba, meu senhor, coisa braba mesmo, difícil de se endireitar com qualquer reza frouxa. Eu me pélo todinho só de pensar nas maleitas dele que contam por aí na vizinhança.

Dizem que ele é doente, coitado, que está mal das pernas mesmo. Mas ainda tá vivo e gritando dentro de casa. Vá, homem de Deus, trate logo de se adiantar! Endireita logo esse assento velho e se livra disso. Oxalá nada te aconteça demais. E que esse senhorzinho fique descansando na sua paz.



“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”
[Guimarães Rosa]


21 abril, 2008

Arrefecer



Minha explosão acontece quando menos eu espero ou posso controlar. Vou guardando aqui e ali, dia sim e dia também, até encontrar neste labirinto aqui que vos fala uma saída qualquer para despejar um tanto da ira contida, cultivada e guardada por tempos. Os mais incautos podem até me alertar que esse tipo de raiva só faz mal, pererê-pão-doce e etcétera e tal. Mas eu peço licença, me desculpo e defendo: acho importante, sim, o ranger dos dentes por, pelo menos, cinco minutos. Até deixar o sol raiar no dia seguinte.

Eu espero até um equinócio, solstício ou a translação se for necessário, mas cadê que essa bola de fogo entranhada aqui dentro sai? Quando mesmo é que ela vai ser expulsa ou expelida, cuspida mundo afora? Repito: quando menos eu espero, numa situação tosca e banal do dia-a-dia, em que faço valer a herança calabresa da família, empino o nariz e estufo o peito para engrossar a voz e, enfim, trovejar meu palavrório por aí.

Forma de defesa? Pode até ser. Coisas do signo? Concordo em tese. Santos que não batem? Acho possível também. Mas eu confesso que gostaria de canalizar parte da ira, já devidamente filtrada e processada pelo bom senso, na hora exata em que ela é animada aqui dentro, a quem é de dever e de direito ouvir.

Que bom que, mesmo com o peito em que pulsa no calor às vezes ardido do coração, você entra no carro e canta seu ritmo. Isso me silencia e me faz sorrir. Me faz ouvir a expiração. Com o perdão do trocadilho, você é um tremendo balde de água fria nessa incandescência que bate aqui dentro. E eu adoro me chafurdar nas águas arrefecedoras que você me benze.

[...]


Entre as coisas mais lindas que eu conheci
Só reconheci suas cores belas quando eu te vi
Entre as coisas bem-vindas que já recebi
Eu reconheci minhas cores nela, então eu me vi

Está em cima com o céu e o luar
Hora dos dias, semanas, meses, anos, décadas
E séculos, milênios que vão passar

Água- marinha põe estrelas no mar
Praias, baías, braços, cabos, mares, golfos
E penínsulas e oceanos que não vão secar

E as coisas lindas são mais lindas
Quando você está
Hoje você está
Onde você está
As coisas são mais lindas
Por que você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas

[“As coisas tão mais lindas”, na voz de Cássia Eller. Uma das faixas que tocam no carro]



17 abril, 2008

Sobre tubarões e leões



“O medo é o companheiro do homem. Ele está sempre ao nosso lado. Temos medo de falar, medo de ser, de respirar, de pensar, de agir. Mas o fato é fazer o oposto: fazer com confiança. E a gente se atira e faz de cabeça”.
[Bibi Ferreira]





Quando criança, um dos meus medos mais latentes era de tubarão. Nunca vi um deles de perto. As imagens sempre me vinham pelos filmes da madrugada, quando mamãe e eu dividíamos o colchonete e o cobertor na sala assistindo à TV de cores parcas e às intermináveis seqüências desse devorador que cismava em ser protagonista das minhas escuridões.

Como bom filho único, fui conduzido de maneira exímia ao mimo e ao colo dos pais para coibir de vez meus medos. A ponto de, ainda moleque, eu dizer para eles que embaixo da minha janela morava um leão, solitário no circo, e que toda noite ele ronronava sobre o parapeito do basculante do quarto. Chantagem eu não sei, mas o resultado foram anos e anos dormindo numa cama provisória instalada no quarto dos pais, sempre a um nível abaixo da cama deles para, claro, não participar de certas intimidades que não me cabiam (apesar de eu nunca negar os ciúmes quando flagrava qualquer esboço ou reação, digamos, no andar lá de cima).

Os tubarões e leões me conduziram à adolescência, também marcada pelos temores típicos da idade. Foi quando eu percebi – mas só hoje me dei conta – da presença fiel do medo que nos acompanha dia a dia. Era um medo que tomava a forma abaulada da interrogação: como se portar na escola? O que dizer aos amigos? Para que jogar futebol? Quem vai sair na salada mista? Quero pêra, uva ou o serviço completo? Esses e outros questionamentos ficaram ali, sentados num banquinho do salão, esperando a vez para que as respostas puxassem-nas para dançar ao seu próprio ritmo e intensidade de ser.

Passado certo tempo, a vida me deu de presente uma caixinha de música, que hoje uso para guardar alguma dessas lembranças de dez, vinte e poucos anos atrás. Elas se apresentam ora resignadas, ora um tanto afloradas quando a caixinha é aberta e o som das reminiscências preenche meu quarto com trilhas de saudade. E de medo também, reconheço. Afinal, quem disse que eu deixei de temer os tubarões e os leões? É que eles não cabem no regalinho musical. Preferem se acomodar mais à vontade dentro da minha mente.


[Ou, como os senhores podem ver na foto que ilustra este post, no vidro do carro. Sempre quando criança achei que o tantinho de água que sobrava do movimento do pára-brisas era a barbatana do tão temido tubarão que me assustava nos filmes. O mau tempo no Rio de Janeiro me fez lembrar, com certo regozijo, essa criança encucada de outrora]



13 abril, 2008

Prezado



Prezado Daniel, como vai?

Há tempos você quis me esconder de mim, mas já não dá mais, não é verdade? É chegada a hora de nos conhecermos. E eu resolvi me apresentar hoje porque vi que, nesses últimos dias, o quanto você estava agitado.

Sua ansiedade era medida por um esfregar forte e contínuo das suas mãos. Tudo bem, eu sei que esta é uma de suas manias quase intransponíveis, mas nem adianta argumentar que se trata de um cacoete herdado da mãe. Sei bem que o é, mas desta vez você o potencializou, meu caro Daniel, como uma forma, acho eu, de não conseguir conter no corpo a energia que te inquieta aí dentro.

Não me vem ao caso perguntar o que, de fato, aconteceu. Você deve saber melhor do que eu, suponho. Mas vim aqui lhe ceder um ombro amigo e, quem sabe, bater um samba antigo, como canta nosso bom e velho Chico, para rememorarmos juntos a leveza que à vida é bastante característica.

Como não acredita que isso seja possível? Claro que sim, meu caro. Inclusive eu bem sei que você já experimentou desse espírito leve em vários momentos da vida. Lembra, anos atrás, as corridas de pique quando criança? As mãos enfiadas na terra, sujeitas a toda sorte de doenças, mas também à alegria de tocar a natureza, tão distante do seu apartamento no sétimo andar?

Lembra o rosto molhado com a água da mangueira, o cheiro doce do bolo quente feito de tardinha pela sua avó? E os seus bonecos? Ah, eu ainda posso vê-los, todos ali no quintal, devidamente prontos para guerrear com você a mais doce das batalhas infantis: a do tempo, que insiste em passar e a gente, às vezes não se dá conta.

Então, se acalme, Daniel. Relaxe, como diriam os neo-terapeutas de plantão. Não deixe que os outros aí da rua ao lado te aperreiem com picuinhas do dia-a-dia. Nem se deixe abater demais no seu próprio ringue. Sei que você às vezes é briguento, marrento e orgulhoso. Não precisa tanto. Apenas respire.

O quê? O ar está pesado demais? Nada disso. Vamos lá, nade para cima. Saia dessa morada azul-marinho do seu oceano e venha celebrar comigo a alegria de poder respirar a leveza fora d’água. Mas se o medo o acompanhar na travessia até o ar livre, lembre-se das palavras de quem você tanto admira, João Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Portanto, nada de frouxidão. Se ainda sim achar que as dificuldades persistem, deixe de dormir duas horas nas suas tardes depois do trabalho e encare a correnteza com coragem e firmeza. Garanto que lhe será favorável na chegada. Pode acreditar.

E conte comigo. Sempre.

Boa sorte,
Daniel, da velha casa.

12 abril, 2008

Mitos


No candomblé, a pessoa morre e nasce para viver uma nova vida, agora caminhando ao lado das entidades espirituais. Para tanto, é necessário “entregar” a cabeça, de forma que ali passe a ser agora a morada do santo protetor, num rito transformador de entrega de sangue, resignação, morte e renascimento.

[...]

Quando me dei conta, eu já estava todinho entregue a você. Feitiço? Não sei. Talvez eu confesse que sempre quis um dia provar do seu mel, para ver se ele era mais doce do que o cheiro que se exalava no salão quando do nosso encontro inicial. A cabeça eu não preciso nem dizer: ficou entorpecida. Nada entrava ou saía à mente desde nosso primeiro olho-no-olho.

Tudo ali começou meio como samba de breque e carnaval. Isso, claro, até a porta do quarto se fechar, porque depois éramos apenas dois corações batendo como atabaques, louvando em batidas fortes o amor como uma das mais divinas criações. Éramos ao mesmo tempo lama, suor, vento, água e fogo, tudo misturado à nossa própria alquimia. Corríamos e congelávamos juntos, contemplando a excelência divina que era fundir dois corpos num só.

Desde então, passei a me vestir mais de branco, para celebrar com todas as cores a alegria de ter o peito renascido ao seu lado. Mesmo diante de nuvens e céu cinzento, sei que a tempestade tem seu fundamento e sua razão de ser. E que, como os próprios mitos contam, depois de chafurdados pela chuva de lágrimas que nos benzeu depois de toda aquela conversa, tenho fé de que encontraremos juntos, de mãos dadas, um arco-íris reluzente à nossa espera.




11 abril, 2008

Talvez

Toda essa vontade de desabafar, esse palavrório que se emaranha como fogo ainda não-cuspido aqui dentro, me cansa bastante.

Talvez seja melhor um cigarro, para expurgar pouco a pouco na fumaça um certo pesar que acordou comigo hoje, antes de vir trabalhar.

Talvez eu devesse mirar a janela por detrás do vidro e contemplar a chuva que cai forte sobre o Rio de Janeiro. Quem sabe perder meu olhar de vista ou até abrir a porta e me chafurdar na água.

Talvez eu queria encontrar mais palavras para escrever, mesmo que eu não consiga fugir do lugar-comum quando o assunto é o amor, seus desdobramentos e ressentimentos.

Talvez eu pudesse quebrar um espelho e atirar todos os cacos para o alto, para ver se rasgo esse meu céu negro e nele crio estrelas fulgurantes, mas confesso que temo os sete anos de azar.

Talvez eu apele para os deuses e deusas que um dia nos criaram, mas não quero me ver esbaforido por aí e me perder no caminho até o cume da montanha, que nos aproxima um pouco mais de suas moradas no alto.

Talvez eu tenha que ficar um pouco sozinho, mas não sei mais conviver com as mesmas músicas, o mesmo incenso, as mesmas cartas do tarô e as mesmas paredes.

Talvez eu precise mesmo é dos olhos-nos-olhos do Chico, mas não sei se quero encarar agora, tète-a-tète, o meu real cansaço com tudo isso.

Talvez seja melhor esperar um pouco. Pelo menos, até você, de fato, se manifestar.

[...]




“Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?”
[Fernando Pessoa, Álvaro de Campos]





[Quem quiser conhecer mais sobre a velha casa, fica o convite para ler uma conversa bacana que tive com o pessoal do Entre Vistas.]

Majestade


Nunca escondi minha vocação de ser mais real que o próprio rei. Mas também faço por onde: trato você como uma verdadeira majestade. Não me importo de estender meu tapete vermelho, entregar-lhe o cetro maior que sua própria altura ou procurar as mais preciosas pedras da sua coroa. Mas eu confesso que também muito me agradaria se o mesmo fosse feito do outro lado – ou mais até, numa competição saudável e sem exageros que só estimularia nosso amor. Infelizmente, não me sinto à vontade em lhe pedir ou decretar certas demandas. Nessas horas, tenho que ser britânico e respeitar os horários, agendamentos e posicionamentos do seu coração, que volta e meia esquece nosso trono ali, vazio no salão oval, mesmo diante da minha presença, que se vestiu das mais nobres vestes para ver você. Mas, como dizem além da sacada: “É melhor esperar sentado para não se cansar”. Só não se esqueça: eu não sou homem de protocolos. E gosto de ser cortejado. Muito. Portanto, ainda que com certo cansaço e um tanto resignado, faço aqui meus votos de que suas mirras e oferendas me sejam ofertadas, independentemente da sua natureza. Quero ver chegar o dia da minha folia de rei. Até eu me levantar de vez do trono e ir à forra com o povo.


“E muito pra mim é tão pouco
E pouco é um pouco demais”
[na voz de Maria Rita]



[Quem quiser conhecer mais sobre o escriba aqui que vos fala, fica o convite para ler uma conversa bacana que tive com o pessoal do Entre Vistas.]

10 abril, 2008

Grafite

Eu gosto do amor feito à mão. E quero muito lhe esboçar um bilhete, desenhar seu rosto no papel, preencher com o vazio da folha os traços desse olhar que tanto me acalanta. Os primeiros rabiscos até que saem, mas confesso são parcos. Eu tento, escrevo novamente, pego a borracha se errar, jogo papéis e mais papéis amassados na lixeira, rabisco daqui e ali, mas a grafite da lapiseira só se fez quebrar. A escrivaninha é testemunha. Nem adiantou pegar o velho lápis amarelo dos tempos de colégio, guardado no estojo. Mal se apoiava na mão de tão gasto, e sua ponta já estava bem fraquinha. De caneta eu já não tenho coragem de arriscar – como fazer com as rasuras? Acho que preciso mesmo é dar um desconto às mãos, que têm sido mais carregadas nessas últimas semanas, quando o assunto em pauta é você. Por isso que a grafite não dá conta e sempre se quebra sobre o papel. Não que ela seja fraca. É a mão que, por ora, tem sido pesada demais.


[Quem quiser conhecer mais sobre o escriba aqui que vos fala, pode ler uma conversa que tive com o pessoal do Entre Vistas. Apesar de estar mais acostumado a perguntar do que ser perguntado, foi uma experiência bacana]