16 novembro, 2008

Nem sei quem sou



A velha casa ainda não foi demolida pela ação do tempo, mas anda carecendo de mais movimento de sentidos por entre seus cômodos. Mesmo com uma falta de assunto assombrosa, a porta desta casa que vos fala ainda não se fechou de todo, acreditem. Vivo passando esses dias de silêncio sentado ao chão, com as costas repousadas num canto. A mente se resigna no quarto, único confessionário de seus medos, anseios e certas frustrações. Já o corpo, esse flana por aí sozinho na busca de um eu que “nem sei quem sou”, como cantavam os hermanos. Talvez encontre algum lugar bonito, que lhe inspire um palavrório mais agradável que este agora.

 

[Peço desculpas aos amigos pela ausência desta casa, mas detesto soar-me chato em tempos assim. Por isso, as poucas palavras. Mas prometo – a mim e aos que aqui visitam -- ser mais leve. A alma precisa disso]



27 outubro, 2008

Saia da velha casa



Saia da velha casa agora. Você não fez valer o acordo de um ano atrás, quando nos demos as mãos para sincronizar cada passo das pernas. As minhas foram além do que o passo pensou em alcançar, enquanto as suas insistiram em se cruzar, mesmo diante do esforço nato de querer vencer e persistir na luta. Você não teve a hombridade de seguir adiante num caminho que se tornou favorável depois de todo vento desferido para ver você reconquistando seu mérito. Agora não queira me alcançar mais. Já alçei vôo para um qualquer lugar.

Saia da velha casa agora. Sei que de você eu cobro demais, eu corro demais, eu me exalto demais. Mas também sei que, por mais piegas que possa parecer, eu amei você demais. E isso hoje me dói reconhecer. Porque não se ama alguém sem antes olhar para o próprio buraco do peito, juntar os cacos e reconhecer: aqui dentro mora o amor. Próprio, exclusivo, meu. Quer dizer, mora ou jaz, pra mim hoje tanto faz. Com você, não vejo mais diferença na forma como esse sentimento se repousa.

Hoje apenas a frieza é que tem me assustado as noites. Tem chovido demais em mim nesses últimos dias, mas não faço mais questão de estar contigo na janela esperando o alaranjado do céu indicar um novo tempo. Vivo a intensa tempestade que grita aqui dentro, mas o guarda-chuva que cobre outras dores não deixa mais a água escoar pela pele, que dirá pelos olhos.

Ainda assim, fica tudo meio seco, meio tapado, meio acumulado, meio embolorado. Até chegar a hora do banho e poder, enfim, forçar alguma lágrima a cair no rosto já molhado pela derrota de ter ferido um compromisso comigo mesmo: não mais te ajudar. Prefiro, ainda que sem mais notícias, saber que você é capaz de dar seus próprios passos sem precisar mais dos meus pés. Ou quem sabe das minhas costas, tão depositárias da sua inércia. E, claro, também da minha estupidez em ter acreditado que as coisas poderiam mudar. Vã ilusão isso tudo. Por isso, eu repito de voz altiva, de sombrancelha cerrada e de dedo em riste:


- Saia da velha casa agora.

[Texto escrito no impulso, na frieza e na tristeza, antes de o banho servir de ungüento para apaziguar as feridas]

04 outubro, 2008

Tomar rumo



Desde pequena, ela foi ensinada pelos mais velhos a não ficar muito de frente para a janela nos dias de sol muito a pino. Era como se, de certa forma, protegessem a menina de uma visão muito ofuscada do mundo. Mas ela, curiosa que só, não hesitava em espiar pelo parapeito um pouco daquela luz irradiante que tanto sentia falta. Contava isso às amigas bonecas que lhe compartilhavam a cama, as brincadeiras e parte da infância.

Certo dia, ela se viu sozinha naquela velha casa que morou. Todos haviam saído e, por isso, não esperou em logo se apresentar, cara a cara, com aquela fronteira que tanto a distanciava do mundo de lá. Nos primeiros minutos, de rosto colado no vidro, a menina não compreendia bem por que da diferença de calor entre sua testa e a luz que perpassava a janela sem qualquer cerimônia.

Ainda sim, paralisou o olhar contemplativo diante daquela novidade toda. Só não contava com o inesperado: um inseto, para ela de nome indefinido, que bateu contra o vidro sem pedir muita licença à mocinha. Nojo e curiosidade chegaram meio assim, misturados, nos olhos da menina, que fitou bem para conhecer o visitante.

Não deu para tocá-lo de imediato, mas não titubeou e logo abriu aquele vidro. Outro espanto: o bichinho, assustado com o movimento brusco, voou. Tomou seu rumo na vida. E ela, mesmo sentida com a ausência do novo amigo, esboçou um sorriso de canto de rosto. É que, finalmente, a menina pôde sentir a inexplicável mágica de ter luz e ar dançando juntos ali, às suas mãos.

A partir desse instante, ela também decidiu, mesmo pequerrucha, a tomar outros rumos. E se lhe faltasse luz no quarto escuro das bonecas, ela sabia que, da janela, vinha o brilho necessário para reinventar seu dia. Sua infância. O novo da vida.

30 setembro, 2008

Nu no espelho



O medo de mostrar as dores era tão grande que o menino, desde cedo, tratou de escondê-las com uma aparente calmaria. Todo dia, antes de sair para o mundo, ele se vestia com uma tranqüilidade que, a princípio, não o pertencia de todo. Foi moldada para exatamente não revelar as chagas que o abatiam por dentro. Não queria ser visto com olhos da condescendência, vulgo pena para muitos. Queria mesmo era ser feliz, mesmo a custo de um esforço incalculável em tentar dirimir o trânsito de sentimentos e frustrações que por dentro dele circulava. Mas coisa ou outra não dava para escapar do controle. Eram as nuances que poucos se atinham a perceber: um olhar esquivo, a voz encolhida, o desenho da ruga. E assim, paramentado de sensações construídas, ele seguiu a vida inventando sua personalidade. Até se dar conta de que, para aliviar as feridas com o ungüento necessário, o menino tinha que se despir. Mesmo que o espelho não hesitasse em refletir sua dor maior: a de ver quem realmente é. Fazia tempo que ele não se atentava para isso. Estava entorpecido pela própria invenção de ser o que não nasceu para.



24 setembro, 2008

Ponte para o céu



Havia cansado de esperar. A menina brincava dentro da casa, ansiosa pela promessa de novas cores um dia a ser cumprida. Seu branco já estava desbotando nas paredes, embora a experiência de vida já não lhe dera muita variação de tons nos últimos anos. Para ela, tudo seguira num mesmo nuance até o dia em que lhe juraram apresentar o arco-íris. Mais do que a porta para as novas cores do mundo, esta seria a ponte que levaria a menina àquele céu tão cantado em suas orações de joelhos por uma vida fora da casa. Eram dias e dias a fio, apoiada no parapeito da janela esperando o enlace entre a chuva e o sol. Queria testemunhar o espetáculo nas nuvens para, finalmente, a guria poder se arrumar com sua mais bela roupa e receber aquela visita. Mas nada aconteceu. O tempo seguia em seu ciclo numa estabilidade rara de encontrar por aí. E o arco-íris tão esperado só aparecia quando ela cismava em fitar o sol para, de uma vertigem ilusória, lhe surgir cores novas. Mas, desta vez, não havia mais ponte. Tudo estava solto no ar.



Molhado



Em alguns pontos eu contrario minha mãe. Um deles é quando saio do banho, sempre molhado. Não tenho o hábito de me enxugar. Ela não compreende e sobrepõe minha mania com a dela: espalhar três ou quatro toalhas pelo banheiro. Esforço em vão. Gosto da companhia da água nos braços e nas pernas encharcadas, ainda que em proporção ínfima perto da excitação de estar frente ao mar. Acho que gosto mesmo é de ver o corpo evaporar pouco a pouco, alheio ao meu controle. Mesmo correndo risco de um escorregão, sinto a vida mais própria com o movimento das águas em mim. Isso vale, sobretudo, para essas semanas de apatia externa e inquietação aqui dentro. Com a água, sinto movimento na pele. Efêmero, que seja. Porém diário. 

Arreio



Filho de Deus, pra que galopar tão depressa assim? Você não tem experiência na coisa e já sai pegando o pangaré assim, às escondidas? Não vê que o bicho, por mais ensinado que seja, tem vida própria e não é toda hora que segue o comando do arreio que lhe prendem na cara? Pois é, você vai se metendo à valente por aí e não conta que pode cair do cavalo, não é? Mas é bom se precaver, meu caro. O chão é duro para aqueles que saltam alto demais sem saber domar as próprias rédeas. Por isso, nada de estripulia mais: ande devagar porque a vida da gente, de vez em quando, pede calma na caminhada. Se por um acaso você cair novamente, lembre-se de que o tombo será menor e a dor, passageira, se o ritmo for mais controlado. Mas do jeito que você estava indo, Jesus, resguardo de cama seria pouco para tamanho abuso. Quando melhorar, vá ao campo e converse um pouco com seu cavalo. De preferência, de manhãzinha. Quem sabe assim você aprende a lidar melhor com ele quando quiser se aventurar de novo por aí nessa vida.



20 setembro, 2008

Em construção



Minha personalidade não é inventada. Não é fruto da mente ou ser empírico dentro de mim. Eu a construo dia a dia, entremeando dúvidas e certezas de que a felicidade plena é um sonho possível. Minha personalidade é quase palpável. Por mim, digna de qualidade totêmica. E se não fossem os malditos erros que me cingem o peito, não haveria a necessidade de me erigir constantemente diante das intempéries da vida. Eis o valor do meu suor diário e, hoje, uma das minhas razões de aqui escrever.


[Pensando em Chico e em Clarice]


De / Para




Prezada Clarice,

Nunca tive sentimento de vingança com a tristeza inoculada no peito. Deduzo suas origens, mas ainda não aponto com veemência os autores da obra. A não ser quando me encontro com o espelho. Imagem nítida de um único reflexo retorcido pela mais ordinária dúvida do ser humano: “Por quê?”.

A bem da verdade, eu nunca me senti, de fato, vestido com as afirmativas do mundo. A certeza da vida me desnuda. Prefiro me calçar com os questionamentos que costuram minha história. Assim, em silêncio, vou me impondo perante os inimigos, perante os incrédulos da minha vitória e, quem sabe, até perante outras coisas do mundo que ainda quero tanto aprender.

Estou num momento de poucas palavras, cara amiga. Mas espero de coração que aceite esse meu breve desabafo como um regalo daquele que tenta, assim como fez a senhora, compreender um pouco dessa nossa vida.

Com respeito,
Daniel

17 setembro, 2008

Do prefácio à página dois



Dizem que eu sou de pouco falar, mas isso não é lá bem uma verdade: eu sou mesmo é tagarela, por demais até. A diferença é que eu me desembesto de verdade quando estou sozinho.  Melhor ainda se estiver andando por aí. Falo sozinho e nem finjo usar o celular no ouvido. Nem para concatenar dá tempo. É uma resposta automática às tempestades que se formam aqui dentro de mim. Preciso chover, de preferência ao ar livre e sem local exato. Caso contrário, fica pesado demais para suportar. Não tenho tempo para prever a calmaria, muito menos hora para trovejar. É assim que aprendi a lidar na vida-a-vida, com diria Clarice: com relativa tranqüilidade até a página dois – que confesso: raramente eu viro. Só mesmo quando mexem comigo. Do contrário, deixo o mundo ler e reler meu prefácio de poucas palavras, muito silêncio, mas de muito vento aqui dentro.