20 novembro, 2007

Sebastião


Sempre me apresentei em cena como uma pessoa que levava muito a sério a vida, meio como o Chico canta (mais lindamente na voz de Bethânia e Caetano): “Marcado a frio, a ferro, a fogo, em carne viva”. Eu trabalhava essencialmente com dois extremos: o que era bom e o que não era bom pra mim. Este era o meu lema, ainda que cravado, “feito tatuagem”, nas entrelinhas que eu sempre custei a revelar ao mundo. E confesso: muito me aturdia quando alguém, seja qual fosse o grau de proximidade, se prestasse a querer destrinchá-las, independentemente da minha vontade ou permissão.

Eis a forma, senhores, que eu escrevia meu nome todos os dias nos autos do cotidiano. E, dessa postura um tanto extremista e metaforicamente bélica de ser, assisti a muitos nascimentos e rupturas. O prefixo “re”, que indica o “de novo” ou a “outra vez”, pouco se fazia presente. Comigo, era oito ou oitenta, pão-pão-queijo-queijo, bem prático e sem muitas delongas, tudo com os pingos inscritos em seus respectivos is, nem mais nem menos.

Mas nem de dores e delícias vive o homem, e alguns fatos (talvez esses rompimentos quase umbilicais) me fizeram acreditar que dava pra seguir de forma diferente. Regozijar, recuperar, recomeçar: aprendi a conjugar verbos como esses, agora além do que ensina as regras estanques da gramática. A ordem a mim dada era permitir-se sempre e, em alguns momentos, tentar ver as coisas à Poliana, procurando não perder o lado bom de vista. Eles podem não aparecer às claras, mas é possível virar o poliedro da vida em busca de uma faceta ainda não-explorada.

Não é das tarefas mais fáceis, principalmente quando não se parte mais de uma tabula rasa, pronta para ser novamente escrita em cima de erros, acertos e tentativas. Até porque eu sei que ainda me apresento nessa história por demais desconfiado de tudo e de todos. Outra das heranças da adolescência que em mim ainda jaz em seu silêncio atemporal.

Mas agora creio que, nessa lápide ainda reverberante aqui dentro, eu posso escrever, em epitáfio, que “o mundo é bão, Sebastião”, como bem cantam os Titãs. Se não é “bão”, pelo menos pode ser. Sebastião, neste caso, não foi um redentor ou aquele santo de devoção para as causas mais improváveis. Mas, seja lá que forma escolheu para se representar entre nós, ele fundou em mim uma forma inaugural de flanar pela vida afora. Por isso, a Sebastião, toda noite tenho dedicado os meus améns, com eterna gratidão.


Um comentário:

J.P. disse...

Posso arriscar dizendo que isso acontece quando pedimos "licença do nosso mundo"?

(Mais uma vez, lindo!)