Hoje foi dia de análise. Descobrimos juntos -- eu e a analista -- que eu estou infeliz. Ela me alertou: "Vou lhe fazer uma revelação séria. Qualquer coisa, me liga". Não vou precisar, Ângela. Está tudo bem. Foi, de certa forma, aliviante constatar isso. Precisava dar esse grito, que acabou saindo por você. Não tem problema: certas horas, você sou eu mesmo, não é -- ou para quem mais eu contaria minhas intimidades? Foi um alívio. Estava acostumado a ser infeliz. Difícil era encarar a ideia contrária: de ser feliz, mesmo querendo muito. Descobri que provocava o desejo dessa felicidade, mas me era clandestina. Eu renegava a troco, talvez, da comodidade de continuar à deriva na lagoa. A água já estava turva, e eu nem me dei conta. Os olhos cegam para a mesmice do tempo. Precisava de um sacolejo. E você, cara Ângela, me ajudou. Por isso saí bem hoje da análise, mesmo constatando a infelicidade que em mim ainda fixou endereço. Estou surpreendentemente feliz. E, claro, disposto a dar a volta por cima, ainda que seja difícil a ideia de encarar o que me é novo. Sim, meus amigos: ser feliz é privilégio para poucos. Para mim, ainda é sinônimo de novidade. Mas daqui a pouco vira notícia velha, podem apostar.
08 Julho, 2009
01 Julho, 2009
Boi pintado

Dizem muito aqui no campo que não se deve andar no lombo de boi pintado. É bicho danado de traçoeiro, não vale muita coisa. A calma que ele apresenta no campo não passa de enganação: vá se atrever a montar pra ver se o bicho não se enfurece? Eu nem arrisco tentar, deixa ele lá quieto. Coitado, deve ficar triste: um boi pintado e incompreendido. Vive sozinho, isolado no campo, a mastigar sempre a mesma comida. Está atado à rotina. Carece de afago, de cuidado. Talvez por não ter tido isso desde os tempos de bezerrinho que é ficou assim, bravo, parecendo um touro daqueles dos filmes. E duvido que dêem oportunidade do pobrezinho mostrar um pouco de calmaria.
Interseção
29 Junho, 2009
Aos leitores
Caros amigos que frequentam ou vistam a velha casa,
Estacionamento

A cena ainda é do estacionamento. Nós dois dentro do carro benzendo com a tristeza nosso fim. Pegue o lenço, enxugue o rosto com a página virada. Não, por favor, não feche de vez o livro, ainda temos história pra contar. Fique mais um pouco aqui.
27 Junho, 2009
A plantinha
Era como uma plantinha de apartamento: sempre no mesmo canto, sempre com o mesmo sol, sem muitas evoluções na vida. Era raro quando um pé de vento vinha lhe contar alguma nova -- a janela vivia fechada para evitar a poeira. Sua única companheira diária era a água, mas ainda sim só lhe molhavam rapidamente a raiz. Mais nada. Queria tanto sentir um pouco de frescor pelo corpo, pobrezinha, mas só recebia a calmaria das águas em seus pés. E com tempo contado: coisa de três vezes por dia e olhe lá. Restava a pobre plantinha se reservar às mutações a ela impostas para ver se conseguia ter alguma movimentação nessa vida. Era sua sina: responder no corpo aquilo que a casa lhe transmitia. Papo de energia, como dizem os mais entendidos no assunto hoje. A plantinha alterava seu estado físico de acordo com o ambiente. Era uma espécie de termômetro natural: absorvia o clima de seu habitat. Ecologicamente correto para lhe impor em sua estrutura o incorreto. Daí se explica sua natureza de caule encurvado, com pouco verde predominando, sem nenhuma florzinha qualquer para contar história. Ela funcionava como o espelho da velha casa, embora não pudesse cumprir de fato sua verdadeira função no mundo: refratar a quem para ela olhasse a real identidade da aridez, aquela terra que carece de um pouco de chuva para seguir a vida. O chão continuava liso, sem rugas, nem demarcações. Tudo parecia intacto. Inclusive a plantinha em seu vaso.
23 Junho, 2009
Insone
Aos que dizem que sou muito fechado, de poucas palavras e de muitas entrelinhas, tenho uma confissão aqui a fazer: senhores, venho me alternando nessas últimas semanas entre a alegria e a tristeza. Tudo no intervalo do dia, o que torna ainda mais cansativo o prosseguir adiante. É tudo como uma parábola, dessas que aprendemos no colégio. Geralmente a euforia cresce ao longo do dia. Assume um auge sublimado, pontilhado no gráfico (porque não o percebo) e cai vertiginosamente no fim do dia. Ao ponto de estar aqui agora, a poucos minutos para uma da madrugada, insone, dançando no escuro do quarto com a companhia de músicas aleatórias, sem coerência lógico-afetiva entre elas. Um amigo, poucas horas atrás, me perguntou ao telefone: "Você está bem?". Respondi que sim, mas é mentira. Minto para mim mesmo -- e, por tabela, para os outros. Tem me sido uma constante ultimamente. Tanto que finjo que durmo. O corpo pede a cama, o cansaço dá sinais latentes, mas não consigo dormir de fato. Medo do que virá pela frente, talvez? Não sei, mas alguma batida aqui dentro veio me responder que sim, há uma certa tensão. Será que é com o amanhã? Ou com o ontem que ainda guardo no bolso da camisa, papel dobrado que tenho comigo por pura mania de não jogar nada fora, memórias amontoadas na desordem do armário embutido? Não sei responder. Tenho me achado um tanto burro ultimamente. Embruteci. Forjei o cerrado da testa. Talvez por isso o sono não se deixa aparecer. Dormir me deixa mais sensível ao mundo. Mas esses dias têm sido assim: de pernas exauridas e de hora atrasada para chegar ao trabalho. Não há tempo para lembrar dos sonhos. Por isso talvez ainda esteja acordado: em vez de dormir e deixá-los vir à tona, fico à espera aqui no quarto, só para ver se algum deles vai bater à porta. Acordado, ainda mantenho uma nesga de sensibilidade de que preciso para ver um pouco mais de graça, cor e leveza nas pessoas. Por ora, ainda sigo seco e meloso.
10 Junho, 2009
Apelido
Gostava tanto de te chamar por aquele apelido. Não era original, muitos faziam uso dele, mas me era muito aconchegante. Isso não quer dizer que era fácil: para mim, era como se estivesse duelando com o sacrilégio de diminuir você, sempre tão imponente, em duas sílabas modestas: vogal-consoante, vogal-consoante. Elas eram soletradas numa voz baixinha, precedidas de um leve assobio que anunciava minha presença. Antes de chamar, queria sentir nos olhos a câmera lenta do seu pescoço virado no meio da rua, aquele olhar contemplativo avistando o ponto de longe e, por fim, o movimento suave do sorriso ao me ouvir chamar do lado de lá. Era essa a forma de demonstrar um amor tão guardado aqui dentro, quase eremita, que se manifestava ao mundo ao seu jeito, sem muitos padrões ou convenções. Tentava a todo custo ser único, original, autêntico, mesmo sem saber muito sê-lo. Por isso, o assobio para chamar a atenção. E o apelido guardado que, mesmo hoje longe, ecoa em certas noites de silêncio aqui no quarto.


