05 abril, 2008

Personas


Em parceria com a menina [P], do Segundas Intenções


Eu prefiro a meia-luz ao breu total, sempre. Gosto de observar seu semblante, seus olhos virados e aquele cantinho do dente que escapa à sua boca frouxa. Sim, frouxa, aberta, descontrolada, com menos ação e muito mais reações a se desenrolarem naquela cena.

[Eu prefiro fechar os olhos em meio à meia-luz que ele tanto gosta, sempre. Gosto de sentir seus dedos deslizando pelo meu rosto, acariciando meus lábios e excitando cada pêlo do meu corpo. Sim, prefiro deixar à mostra meus sentidos em sons descontrolados, enquanto imagino que ele esteja mirando minhas reações, aguardando a cena seguinte.]

A única resposta sintomática sua é a das mãos, que vão desenhando no tato o desejo latente de um corpo febril. “Saudade dá febre”, já dizia Guimarães Rosa – e a quentura das nossas peles avisava naquela hora o quanto de tempo nós deixamos passar até o reencontro.

[Minha resposta à quentura do seu desejo surge em forma de saliva e de língua em movimentos desconcertantes. Deposito em seus lábios toda a saudade que uma espera longa provocou, misturada agora à minha vontade de perder-me toda em sua febre de sentir.]

Foram meses de espera e de mal-entendidos. Inseguranças que só o amor, camuflado nas cores da paixão, são capazes de proporcionar. Mas ontem foi diferente: enfim, decidimos ir adiante. Enfim, decidimos deixar os rompantes falarem mais alto do que a complacência da fatídica pergunta: “Será que devemos, de fato e de direito?”.

[Ir adiante, depois de tanto tempo, é o que nos resta, de fato e de direito. Deixe suas dúvidas e apenas siga meus rastros, disposto a sentir como ainda não sentiu e matar a vontade daquilo que ainda não viveu. Venha comigo...]

E a lua foi testemunha do nosso pas-de-deux horizontal. Reluzia ali, minguante no céu, como se fosse uma criança voyeur, escondendo entre as estrelas a metade da face, mas deixando sobressalente o olho atento às maravilhas que aconteciam além do buraco da fechadura.

[Eu não queria, mas sei que fizemos inveja à lua. Sei que me perdi enquanto você reluzia no meu céu. Não sei se vou te deixar sair de dentro das minhas entranhas. Acho que moramos tão bem um no outro, que não vejo por que não surpreendermos também o sol, com todo o amor que fazemos além do que um simples buraco pode mostrar...]


6 comentários:

[P] disse...

Gosto disso.

Quando as coisas funcionam. Quando o resultado é algo bonito de se ler [dá licença, não sei onde minha modéstia está escondida, tá?].

E quando Daniel se solta...

[Indolor, não?]

Foi um prazer, moço.

=***

ps: você é um parceiro e tanto... começar post é contigo mesmo :)

:: Daniel :: disse...

Digamos que a menina [P] tem me ensinado -- e incentivado --, com seus textos e bate-papos, a ser, digamos, mais desenvolto. E, por que não?, mais leve.

Também gostei muito da experiência! =]

Bjo grande!

Bárbara Matias disse...

Gostei muito tamb�m! Parab�s aos dois pela uni�o de sentidos... de sentimentos...

Ah. e gostei muito do fim. Maravilhoso!

FlaM disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
M. disse...

Gostei. [P] recomendou e eu gostei bastante das imagens que vi em cada palavra.

Marina Mah disse...

A parceria deu super certo. Você poético, suave e etéreo, ela é certeira, aberta, sem meias palavras.

Bem temperado!

DESTACO [e a quentura das nossas peles avisava naquela hora o quanto de tempo nós deixamos passar até o reencontro.]

Lindo!