17 abril, 2008

Sobre tubarões e leões



“O medo é o companheiro do homem. Ele está sempre ao nosso lado. Temos medo de falar, medo de ser, de respirar, de pensar, de agir. Mas o fato é fazer o oposto: fazer com confiança. E a gente se atira e faz de cabeça”.
[Bibi Ferreira]





Quando criança, um dos meus medos mais latentes era de tubarão. Nunca vi um deles de perto. As imagens sempre me vinham pelos filmes da madrugada, quando mamãe e eu dividíamos o colchonete e o cobertor na sala assistindo à TV de cores parcas e às intermináveis seqüências desse devorador que cismava em ser protagonista das minhas escuridões.

Como bom filho único, fui conduzido de maneira exímia ao mimo e ao colo dos pais para coibir de vez meus medos. A ponto de, ainda moleque, eu dizer para eles que embaixo da minha janela morava um leão, solitário no circo, e que toda noite ele ronronava sobre o parapeito do basculante do quarto. Chantagem eu não sei, mas o resultado foram anos e anos dormindo numa cama provisória instalada no quarto dos pais, sempre a um nível abaixo da cama deles para, claro, não participar de certas intimidades que não me cabiam (apesar de eu nunca negar os ciúmes quando flagrava qualquer esboço ou reação, digamos, no andar lá de cima).

Os tubarões e leões me conduziram à adolescência, também marcada pelos temores típicos da idade. Foi quando eu percebi – mas só hoje me dei conta – da presença fiel do medo que nos acompanha dia a dia. Era um medo que tomava a forma abaulada da interrogação: como se portar na escola? O que dizer aos amigos? Para que jogar futebol? Quem vai sair na salada mista? Quero pêra, uva ou o serviço completo? Esses e outros questionamentos ficaram ali, sentados num banquinho do salão, esperando a vez para que as respostas puxassem-nas para dançar ao seu próprio ritmo e intensidade de ser.

Passado certo tempo, a vida me deu de presente uma caixinha de música, que hoje uso para guardar alguma dessas lembranças de dez, vinte e poucos anos atrás. Elas se apresentam ora resignadas, ora um tanto afloradas quando a caixinha é aberta e o som das reminiscências preenche meu quarto com trilhas de saudade. E de medo também, reconheço. Afinal, quem disse que eu deixei de temer os tubarões e os leões? É que eles não cabem no regalinho musical. Preferem se acomodar mais à vontade dentro da minha mente.


[Ou, como os senhores podem ver na foto que ilustra este post, no vidro do carro. Sempre quando criança achei que o tantinho de água que sobrava do movimento do pára-brisas era a barbatana do tão temido tubarão que me assustava nos filmes. O mau tempo no Rio de Janeiro me fez lembrar, com certo regozijo, essa criança encucada de outrora]



15 comentários:

Wangbu disse...

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Anônimo disse...

Sabe que eu também tenho medo de tubarão? Quando vou à praia, não consigo ficar mais que um minuto com a cabeça embaixo d'água, porque imagino que vou abrir os olhos e vou dar de cara com um deles. Paradoxalmente, adoraria mergulhar e tocar um tubarão. Acho um dos animais mais bonitos e fascinantes que existem.
Gosto de cobras também. Já tive uma se arrastando pelo meu corpo e tenho planos de gravar na pele a imagem de uma delas.
E tenho pavor de aranhas, apesar de achar um bicho bonito. Mas ela lá e eu aqui... Nada dela pertinho de mim... rs

Beijos.

Anônimo disse...

Ah! Sabe o ralo do banheiro? Pois é, quando eu era criança e ia tomar banho, observava o ralo, a água formava uma espécie de bolhas naqueles buraquinhos. E eu achava que era o olho do tubarão. Claro, nem precisa dizer, que eu acelerava ao máximo o banho.. rs

Mais beijos.

Bárbara M.P. disse...

Texto mais gostoso de ler..
É engraçado ver como algumas nuances da infância seguem conosco por nossas vidas. Você relatou pequenos detalhes tão doces (como você e sua mãe dividindo o cobertor para assistir à um filme)- tão importantes para qualquer ser humano que se sobrepõem ao medo, desilusão ou coisa assim.
Adorei ler sobre isso. É muito mais do que apenas medo de monstros e fantasmas, Daniel.

Um abraço,
Bárbara M.P.

Bárbara M.P. disse...

PS: Jú, de ralo de banheiro eu tenho medo até hoje! Sempre penso que de lá vai subiR algum ser rastejante e horripilante sem que eu perceba. Vire-e-mexe me pego tomando banho olhando para baixo!Cruzes!

Beijos,
Bárbara

Rose disse...

Daniel, adoro seus textos. Já disse isso, claro. Mas cada vez que volto aqui tenho uma surpresa. Dessa vez você escreve sobre o medo, olha só, de tubarões! Eu também sempre tive um medo danado deles. Se na TV eles assustam, imagina só ao vivo.

belos dias pra você
beijos

Filipe Garcia disse...

Eu tinha medo de alguém aparecer no basculante do banheiro e, por isso, o mantinha sempre fechado. Mas tomava banho olhando sempre pra cima. Quando ouvia qualquer barulhinho, tremia de medo, rs.

Criança tem medo de tanta bobeira, é um medo tão inocente que chega a ser exagerado.

Ri demais da sua cisma quanto aos respingos de água no pára-brisa.

E, como sempre, o texto tá muito, muito atrativo!

Abraços

Vulgo Dudu disse...

Eu tinha muito medo, mas muito mesmo, da usina nuclear de Angra dos Reis. Lembro-me do acidente em Chernobyl e da música da Legião Urbana.

Quanto ao tubarão, olha que engraçado, arrumei um filme nacional que é satira do estadunidense, e chama-se Bacalhau.

Abs!

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Marco Antonio disse...

É engraçado pensar que sem medo não há coragem... e vice versa.

Mimi disse...

Que coincidência! Estou ouvindo medo do Lenine...

:-)

Inda bem que a gente cresce, né?

beijo

FlaM disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bárbara Matias disse...

Ei Dani...

já que todo mundo tá confessando seus medos de criança vou aproveitar a deixa do texto...rs

Eu tinha muito medo de ET... mas vi aquele filme ET umas 20 vezes... sempre sonhava com uma naveespacial entrando no meu quarto pelo teto... e parandodo lado da minha cama!

Amei o texto...amei amei!

Bjim.

Marina Mah disse...

Engraçado...
Eu também tinha medo dos tubarões... Na praia, tinha mais medo do bicho do que de me afogar (este medo era reservado à minha mãe).
Quantos medos ainda me perseguem...

Beijos
Bom visitar-te e encontrar-te...rs

Tudo ou nada ... disse...

Ainda existem muitos medos na minha vida, mas os da infância eu acho q já superei, apesar de sempre q estou dentro d'água lembro do filme "piranhas" rs
Abraços