25 junho, 2008

Por um fio [parte 2]



Mimi disse...
“Sou eu, me recosturando dia a dia, fio a fio. Bora ser rendeira e fazer um traçado bonito com a vida!”



***

Mimi, que sempre visita nossa velha casa, tem razão. Antes de começar o trabalho com as miçangas, essa mesma moça aí do post abaixo precisou se abrir diante do espelho.

A intenção era nobre: de peito aberto, ela desfiaria com todo cuidado cada trama de sentimentos que se emaranhavam, meio enroscados, em seu coração que ainda insistia em bater. Eram muitas lembranças, saudades, mágoas e tristezas que se cruzavam e ali se confundiam naquele peito.

O músculo dispendia ainda mais força diante da dificuldade em se movimentar naquele novelo de fios que o envolvia. Sua preciosidade mantinha uma palpitação um tanto bruta lá . Era necessário desfiar linha a linha que estavam entrelaçadas. Um processo dolorido, mas necessário para ela, disposta agora a tecer a vida com suas próprias mãos.

Depois de desmantelar os velhos traçados, ela recoseu o peito, fio a fio, ponto a ponto. A moça, no entanto, temia o aspecto final de sua nova costura – uma sutura, uma cicatriz provocada pela ação das agulhas. Por isso, decidiu guarnecer seu peito com o brilho e o colorido das miçangas aí debaixo, gemas miudinhas para arrematar uma jóia rara no mundo.

18 comentários:

Anônimo disse...

Nossa! Extremamente forte e significativo seu texto! Reconhecer sentimentos íntimos é algo muito difícil, e saber lidar com eles é quase impossível... seu texto transfigura perfeitamente a habilidade de sua personagem em conseguir isso! As metáforas são perfeitas, parabéns!

Tudo ou nada ... disse...

E assim se constroi uma vida, mesmo que seja de pequenas situações ou pedrarias.
Abraços

Poeta Mauro Rocha disse...

Bela continuação, belo texto, e algo a se pensar.

Um abraço!!

MAURO ROCHA

F. disse...

Dan... a vida é isso mesmo... a gente se cose, e descose, e recose...

seu texto me emocionou.

Beijos ;)

camila disse...

Ai Daniel... desemaranhar as lembranças, saudades, mágoas e tristezas do meu peito é o que preciso, viu...
Mas é tão dificil!
Beijo
=)

Zek disse...

A vida é um eterno costurar e descosturar ... estou linkando a sua velha casa !!!

Abraços !!!!!!!!!!

BABI SOLER disse...

É. São os processos da vida.

Mimi disse...

Daniel, que afago bom esse texto (vou chamar texto pois não sei se é fato ou ficção) me deu!

Novamente você descreve tudo com sensibilidade que me toca.


Eu agradeço profundamente e confesso aqui que já estava maquinando um outro texto em minha mente, baseado no teu post anterior.

Acabei fazendo isso e dedicando a você também, o que eu faria de todo jeito, uma vez que tuas palavras foram sim minha inspiração!

beijos

Poeta Mauro Rocha disse...

Ola!! Fiz uma sigela homenagem a você e a todos os que visitam e comentam e gostam dos meus poemas, em fim, espero que goste.

Um abraço!!

Tayná. disse...

construindo uma vida colorida em fios transparentes. tão difícil se despedir do que foi. desembaraçar a vida é pior que tirar chiclete do cabelo.

texto tão lindo, meu deus.

Auréola Branca disse...

Já construí tapeçarias de palavras, sabes? Imensas, largas, que escondem-se no meu baú do passado. Ficaram tão bonitas no final, que acabo por satisfazer-me ao olhá-las.

Creio que há sempre um sinal da vida para fazer-nos encarar nossas artes antigas. As miçangas bordadas que mencionanstes terão um valor imenso na linha do destino.

Abraços.

Auréola Branca disse...

Daniel, permita-me presenteá-lo... Há um "selinho Campanha da Amizade" a sua espera em meu Olhos Pretos.
O objetivo desse selinho é presentar amigos que fazemos por palavras e sentimentos. E esse elo eu fiz com você.

Abraços.

Clarice Lis disse...

Tecer a própria vida, fio a fio, que imagem bonita, já me imagino com meus fios na mão ... e como disse tão bem Mimi, bora ser rendeira.

Sabrina disse...

adorei o texto...
especialmente: "gemas miudinhas para arrematar uma jóia rara no mundo".
:)

TCHI de Tchivinguiro disse...

Uma voz eloquente dita na escrita desenhada na velha casa, que é casa rica de talentos.

Maria Laura disse...

É nesse processo de construção e desconstrução (costurando sempre que a desconstrução nos rasga) que a vida se faz.
Excelente escrita.

Camilinha disse...

Lembrou-me um lindo livro da Ana Maria Machado "Ponto a Ponto". Algumas histórias sobre fios, tecidos, histórias que se tecem na história...


beijos daqui...

Maria Flor disse...

Que texto lindo e a construção foi de uma delicadeza e beleza impressionante, para mim é uma honra ler algo de tão fino trato. Continue escrevendo que eu voltarei a esta casa muitas vezes.

beijocas!