30 setembro, 2008

Nu no espelho



O medo de mostrar as dores era tão grande que o menino, desde cedo, tratou de escondê-las com uma aparente calmaria. Todo dia, antes de sair para o mundo, ele se vestia com uma tranqüilidade que, a princípio, não o pertencia de todo. Foi moldada para exatamente não revelar as chagas que o abatiam por dentro. Não queria ser visto com olhos da condescendência, vulgo pena para muitos. Queria mesmo era ser feliz, mesmo a custo de um esforço incalculável em tentar dirimir o trânsito de sentimentos e frustrações que por dentro dele circulava. Mas coisa ou outra não dava para escapar do controle. Eram as nuances que poucos se atinham a perceber: um olhar esquivo, a voz encolhida, o desenho da ruga. E assim, paramentado de sensações construídas, ele seguiu a vida inventando sua personalidade. Até se dar conta de que, para aliviar as feridas com o ungüento necessário, o menino tinha que se despir. Mesmo que o espelho não hesitasse em refletir sua dor maior: a de ver quem realmente é. Fazia tempo que ele não se atentava para isso. Estava entorpecido pela própria invenção de ser o que não nasceu para.



5 comentários:

Dauri Batisti disse...

Ficar entorpecido por aquilo que não se é... isso, de fato, não é bom. Conhece-te a ti mesmo, é um velho e sábio conselho, atualíssimo.

Tiago Moreira disse...

Às vezes escondemos nossas dores para não atrair a pena e a compaixão alheia, como falastes, mas por outro lado, acho que expor nossos fantasmas, dores e medos é uma demonstração de coragem, desprendimento, e admitir que somos imperfeitos e é com essa imperfeição que temos que conviver.

Abs.

Rose disse...

Adoro os seus textos.
E o que me encanta muito aqui também são essas imagens que casam perfeitamente com o que você escreve.

beijos de bons dias pra você ;)
Rose

Nilson Barcelli disse...

Olhar para dentro não é fácil.
E nem o espelho ajuda grande coisa...
Belo texto, gostei.
Abraço.

Beatriz disse...

Interessante o texto sobre aquilo que a água provoca no teu corpo. Comigo acontece também esta sensação de liberdade, mas só quando estou nadando no mar (rs).

Docemente triste a espera da menina pelo enlace do sol com a chuva. Muitas vezes nós também esperamos que um arco-íris venha colorir o branco da nossa existência...

Na postagem atual, todos nós, em algum momento da vida, nos vestimos com alguma coisa que pudesse cobrir uma dor qualquer, um ferimento, uma cicatriz, apenas para que ninguém pudesse pelo menos vislumbrar um reflexo daquilo que escondíamos na alma com um empenho incrível de que não nos descobrissem vulneráveis, frágeis, por ser uma coisa que pudesse nos 'constranger' perante o olhar alheio.

E como aquilo que queríamos "era ser feliz, mesmo a custo de um esforço incalculável em tentar dirimir o trânsito de sentimentos e frustrações que por dentro" da gente circulava, ficávamos então a buscar vestes que escondessem sentimentos e emoções genuínos.

Tuas instigantes postagens, amigo, nos provocam reflexões de toda ordem (rs).

Te deixo um sorriso brincando numa estrela, para enfeitar a tua noite de lindo sonhar, uma flor e um beijo no coração.