04 março, 2009

Palavras de Clarice



Querida companheira,

Desculpe-me a intimidade, mas me sinto confortável para assim lhe chamar, porque você tem sido fiel às minhas noites sem sono, de silêncio no quarto. Nos últimos dias suas palavras têm convivido com minha intimidade, repousadas ao lado esquerdo de minha cama. Melhor companhia hoje eu talvez não teria, porque não me canso de dizer que aprendo muito com seu modo de pensar. Ontem, inclinado em um de seus livros, uma frase sua deu as mãos ontem ao meu pensamento, desde seu repouso habitual até agora. Disse você com toda propriedade que lhe é peculiar: “Amor será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a última coisa que se pode dar de si”.

Confesso, amiga Clarice, que apelei a esse recurso derradeiro do amor neste fim de semana. Tentamos, por mais de um ano, dar certo de todas as formas, mas não deu. “Não deu” soa popular demais, é verdade, mas a escolha é proposital: a frase pede um complemento que, para nós, foi difícil de encontrar. Uma história que esboçou no começo muita beleza, seguiu escrevendo certo por linhas tortas, mas que não vinha acontecendo há tempos. Por isso, não deu e ponto final, sem muitas delongas.

Você pode alegar: mas por que não insistir? Por que não reinventar os dois juntos? Este, minha cara amiga, foi um exercício mais do que diário em um ano e alguns meses de entrega mútua. Nossas linhas já estavam por demais oblíquas para qualquer página que testemunhasse aquela alegria inicial do sentimento recém-descoberto. Sei que Deus ainda prefere escrever certo por essas linhas tortas, mas minha condição de mortal não resistiu à vertigem dos últimos acontecimentos entre nós.

Fraquejei? Talvez. Mas, como você mesmo costuma dizer, “minha força está na solidão”. Isso explica, em parte, meu otimismo em seguir adiante, mesmo com o receio do que virá pela frente. [Ou melhor, sejamos sinceros: um menino pequeno como eu, apesar da barba feita, sente medo e não receio. Hoje com ele eu consigo dialogar melhor. Existem formas de negociação].

Como eu ia dizendo, amiga Clarice, agora reformulando as palavras: tenho medo do que virá pela frente. Mas sei que, nessa trajetória, não me vejo tomando rumos novos, até porque temo muito pelo ineditismo. Coisas desse menino pequeno, acredita? Mesmo de pernas bambas diante do não-visto, creio piamente numa sensação cada vez mais real: a de ter freado o trem para não descarrilar de todo nessa profusão de sentimentos que em nós circula. Parar um pouco -- isso, de certa forma, me encoraja a seguir adiante nessa insistente opacidade do amor.

Desculpe-me a prolixidade caso não tenha me feito claro. Essas situações, você sabe, costumam confundir a cabeça da gente mesmo.

Voltamos a nos falar em breve. Prometo dar notícias.

Com carinho,
Daniel

4 comentários:

Tudo ou nada ... disse...

Clarice, sempre Clarisse
Abraços

Beatriz disse...

Escolheste a pessoa certa para enviar tua carta, pois a Clarice entende de sentimentos e emoções, como ninguém! Tenho certeza de que, nas entrelinhas do seu silêncio, poderás ver muitas respostas espalhadas nos seus livros, que sempre serão uma leitura obrigatória para mim. Gosto de tudo que ela escreveu.

“Amor será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a última coisa que se pode dar de si”.

Uma afirmação que nos traz profundas reflexões, e um dos pontos altos do romance entre os personagens de Ulisses e Lóri. O livro todo (Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres) é um primor de leitura.

Atualmente estou relendo ÁGUA VIVA. Permita-me deixar aqui um trecho de uma de suas falas, que eu acredito possa responder alguma das indagações de teu texto:

“Antes de me organizar, tenho que me desorganizar internamente. Para experimentar o primeiro e passageiro estado primário de liberdade. Da liberdade de errar, cair e levantar-me. Mas se eu esperar compreender para aceitar as coisas – nunca o ato de entrega se fará. Tenho que dar o mergulho de uma só vez, mergulho que abrange a compreensão e sobretudo a incompreensão. E quem sou eu para ousar pensar? Devo é entregar-me. Como se faz? Sei porém que só andando é que se sabe andar e – milagre – se anda.”

Daniel, meu querido, esta foi uma de tuas postagens mais significativas. Apreciei muito a tua exposição sobre o assunto.

Pode ter sido apenas uma expressão literária, ou até mesmo um desabafo... como saber?

Mesmo assim, sem a expressividade da Clarice, e correndo o risco de estar usando um clichê, quero dizer-te que o período que encerraste colocou nos teus caminhos preciosas oportunidades de crescimento interior, bem como de novas descobertas sobre tuas potencialidades. Uma porta fechada? Olha para aquela ao lado... com certeza está apenas encostada. E também existem as janelas! Através delas sempre podemos descortinar um jardim. Se não quiser apenas enfeitar o olhar com a beleza de uma rosa, ainda resta o recurso de saltar a janela e ir colher a mais bonita e perfumada e se presentear com ela. Tudo é possível, meu querido, desde que o coração não se feche para o mundo.

Fica bem, amigo, e não tema o que virá pela frente, pois com toda a certeza tu és um filho abençoado no coração do Pai, e Ele estará sempre olhando por ti.

Fica meu carinho num beijo no teu coração.

Clarice Lis disse...

Que bom que voltou, e espero que dessa vez seja para ficar. Quanto sentimento pode conter as palavras? As suas, com certeza, uma infinidade. Seja bem vindo.

beijos da janela

Toni Rabelo disse...

Queridão, isso é tão seu que quase pude ouvir a sua voz aqui, como se lesse pra mim.
(tô aqui há horas tentando escrever além disso, mas não dá. vou te mandar um mail, tá? rs)

Que bom que voltou!
Isso aqui não é quase uma terapia em grupo?
Só por hoje, só por hoje... rs

Abraço forte.
Toni.