14 novembro, 2007

Falta de assunto


"Eu tenho uma falta de assunto essencial"
[Clarice Lispector]


Por vezes é assim que eu me sinto: sem saber bem o que dizer, mesmo reconhecendo aqui que eu me contradigo porque sou muitos. Por exemplo: entre mim, aquele mim e um outro mim qualquer, pululam neste momento toda sorte de palavras que estão imbricadas em sentimentos um pouco turvos. Eles não me permitem encontrar uma lógica qualquer. Mas, a propósito, como exigir lógica da emoção? Talvez isso seja até possível, mas acho que, neste caso, sai bem mais caro e, por ora, não estou podendo bancar.

Minha agonia é sempre crescente, acompanhada de uma pontada leve na cabeça, talvez lá pelo lado esquerdo. Estou à procura de um gancho, de um recorte. E de um pouco de tranqüilidade também. Enquanto eu não encontro o caminho das palavras próprias, lavradas e registradas no meu nome e sobrenome, continuo me ancorando naquilo que um dia fora escrito por outrem. É apropriação mesmo, reconheço, mas uma apropriação consentida, espécie de empréstimo, uma maneira de driblar a ausência das palavras exatas e mirar um novo rumo para a vida que segue.

Eu me cobro muito, eu sei. Quero sempre soar minimamente interessante para quem se presta a me ler. Um dos legados, acho, da adolescência silenciada, pouco vivida na sua plenitude pueril. Mas de onde poderia vir a inspiração para isso? E onde encontrar a calma? Só calmo encontrarei o caminho dos versos? Quem faz muitas perguntas assim nunca é uma pessoa de todo calma. E, definitivamente, não me enquadro nesta categoria, hoje tão popular e religiosamente apregoada que me faz desistir de acompanhá-la.

Meus olhos hoje podem até refletir a aparente calmaria de uma brisa. É que acreditem, senhores: eu moro depois das tempestades. O endereço certo dessa morada eu ainda desconheço. Nem posso garantir um mapa ou bússola para orientá-los como se chega lá (caso tenham interesse, claro). Isso porque meu invólucro permanente não me permite mostrar além da ressaca. Mas acho que, de quando em nunca, é bom ser pego de surpresa por uma chuva e nela se chafurdar. O temporal pode surgir romântico e merecedor de reflexão. Ou, pelo menos, ponto de partida para um palavrório qualquer. Já é alguma coisa.

Um comentário:

Fernanda disse...

Na falta de assunto, você soou minimamente interessante para quem se prestou a lê-lo. Aliás, uma pergunta retórica, dispensável, mas parada na garganta: Você é escritor? Digo, de algo além dos blogs. Ok, não era essa a pergunta. O certo era 'Já pensou em ser escritor?', mas eu me perguntei 'E se ele for?'. Então...
Bom, círculos inacabáveis depois... Deu pra entender o sentido do que eu disse, certo? Um beijo.