20 fevereiro, 2008

Refúgio


A vida às vezes pede um refúgio para que possamos nos por ora nos licenciar do mundo. Em algumas vezes, eu costumava fazer de um coração alheio o melhor local para me exilar do externo. Mas hoje confesso: não quero mais bater à porta de quem uma dia já dissera tê-la deixado a mim aberta. Prefiro o recôndito do meu sorriso.

Lá se esconde o menino que, mesmo na forma adulta, não se importa em se apresentar ao mundo carregando no punho um atestado de maioridade qualquer. Ele sabe que ali, de certa forma, não é o seu lugar.

Nesta espécie de trincheira, é possível olhar meio agachado, entre os dentes, e revelar ainda uma felicidade aparente, quase clandestina, como diria Clarice. Aquela que evita, por exemplo, as entrevistas e os porquês sobre a tristeza que chega sem aviso prévio. Assim como a felicidade, ela também bate à porta sem ter a chegada anunciada pelo porteiro.

Por trás dessa cortina, há ainda um quê de sordidez de parte do refugiado, que é esboçada por um leve tracejar dos lábios fechados. No movimento em direção a apenas um canto de orelha, eles acabam por revelar a distância ideal para aquilo que julgo ser inadequado, desnecessário ou simplesmente over, too much.

Em certos momentos, é melhor resignar-se no silêncio do que trovejar um palavrório qualquer. Afinal, minha tempestade é preciosa. E o meu refugio também. Só poucos o têm acesso, garanto.


“Abre os teus armários, eu estou a te esperar
Para ver deitar o sol sobre os teus braços castos
Cobre a culpa vã, até amanhã eu vou ficar
E fazer
do teu sorriso um abrigo”
[Los Hermanos]

7 comentários:

Jaya disse...

Daniel,

Primeiro, agradeço teu comentário gentil lá no blog. Obrigada! E obrigada pelo link. Farei o mesmo contigo.

É bem verdade que a vida às vezes pede refúgio. O difícil é encontrar o lugar exato. E vai ver, nessa vida nem exista exatidão. Vai ver por isso é saborosa desse jeito.

Também acredito no poder do silêncio. O silêncio é a melhor resposta.

Um abraço, e até mais!

-Gostei da tua velha casa. Bastante aconchegante. Tanto quanto as palavras de Quintana.

[P] disse...

Portas abertas não podem ser derrubadas, nem em tempestades, nem em silêncio. Prefiro não saber o que há do outro lado, ainda que não seja exatamente o que eu esteja esperando.

"felicidade aparente, quase clandestina". Simplesmente AMO Clarice. Até hoje vivo acreditando que terei reprises de um "estado agudo de felicidade" em minha vida.

E o final do teu post me fez pensar o seguinte: Daniel, o menino de outrora escondido no sorriso do adulto de hoje, a quem somente poucos têm acesso.

[Minha curiosidade está devidamente amordaçada e, portanto, nem vou perguntar "por que"?]

=***

Marco Antonio disse...

Acho que não é a nossa primeira coincidência... mas vê se você não encontra uma semelhança entre seu texto e meu poema? Achei muito interessante, cara.

Tiago Enes disse...

Oi

O Blog tá muito legal!
Bons posts!

Parabéns!

Abraço!


Se puder visite!!!

http://tiagoenes.blogspot.com/

Marco Antonio disse...

Cara, Casa pré-fabricada... gosto muito dessa música!
O pior é que nem tinha pensado nela, mas são coisas do nosso subconsciente né? Escrever o que sentimos é um desafio enorme, transmitir com alguma transparência e singularidade, é extremamente difícil. Mas quando uma pessoa capta pelo menos uma parte do que você tentou transmitir, é gratificante demais.

Dauri Batisti disse...

Seu último parágrafo é perfeito. Concordo plenamente.
Abração.

Bárbara Matias disse...

"Prefiro o recôndito do meu sorriso.

Lá se esconde o menino(...)"
Bonito isso... mesmo que aquele mundo não seja, de certa forma, o lugar dele....

Gostei da forma de apresentar os sentimentos.... mto bom!!!

bjinhos...