27 maio, 2008

Inversão de sentidos




Sempre preferi a meia-luz ao breu total, mas você me apresentou um novo ponto de vista: desta vez, com o escuro dos olhos fechados. Enxergava você naquela noite pelo tato, pelo cheiro, pelo beijo.

É como uma inversão de sentidos. No silêncio do quarto, minha boca escuta seu “Te amo” mais tenro, num eco sussurrado aqui dentro letra a letra, que em mim ressoava lenta e repetidamente de cima a baixo, cabeça, tronco, membros e coração em consonância, no mesmo ritmo, dançando juntos a mesma trilha sonora.

Só que a música não pede apenas as mãos dadas: para o nosso pas-de-deux, eram corpos dados, doados e dedilhados por reações quase sintomáticas, que se preocupavam em desenhar naquele momento as mais diferentes vibrações, produzidas por pernas e braços ali trançados num único novelo, desta vez sem fios à solta.

Éramos dois em um, numa mistura de gosto, deleite, prazer, agrado e satisfação, que me faz hoje conversar com o mundo apenas por meio de um leve e involuntário suspiro a cada vez que lembro nós dois. E também um sorriso multifacetado que intriga a quem por mim passa neste dia seguinte, de você hoje desmembrado.

Eu sem você, nossos corpos sem interseção. Quer sentido mais invertido que esse?



[Escutando “A tua presença morena”, de Caetano]



6 comentários:

Camilinha disse...

Eu sempre achei que o cerrar dos seus olhos
fosse indiferença.
Mas hoje, quando tocou a viola,
fechou os olhos
e sonhou.
Aí eu vi que
suas pálpebras são cortinas de voal
que filtram a luz que fere
e deixam passar a luz que ilumina.
Quando fazia amor comigo de olhos fechados
não era para imaginar outros corpos,
Era para me sentir entrando em ti.
Eu sei.

das minhas reticências...


beijos daqui...

Mimi disse...

ai... adoro inverter papéis...

Leila Saads disse...

Dois corpos que se amam por vezes se separam sem deixar de se amarem, apenas para seguir caminhos diferentes... E carregam consigo as lembranças dos tempos bons...

Mais uma vez o texto ficou ótimo!

Beijos=*

J.Machado disse...

Fala meu caro, tudo bem?
Li seu texto, não sei se é descritivo ou se há muito nas entrelinhas - como sempre.
Fechei também os olhos e imaginei a cena. Reticências.
No início suas palavras dão a idéia de um ser único...no final porém, vc conclui "Eu sem você, nossos corpos sem interseção. Quer sentido mais invertido que esse?".
Enfim...pra mim um enigma.
Excelente como sempre.
Abração!

FlaM disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bárbara M.P. disse...

Daniel,


Estou "incorporando" você à minha rotina. Agora é café, jornal, pãozinho com geléia e Velha Casa.
(Risos)


Beijos...