20 junho, 2008

Bacamarte



Ele rogou a Deus que acabasse logo com aquela história. Estava disposto a encontrar a todo custo seu próprio infinito. Por isso, não hesitou em desfraldar o bacamarte escondido atrás do armário que herdou dos avós. A arma também lhe significava a força que seus antepassados deixaram no tempo, como forma de manter estendida a bandeira de um ponto final, sem qualquer preocupação com o juízo de valor do vilarejo em que morava. Tudo se resolvia com olhares ou, se não tivesse jeito mesmo, à base de uma pólvora há tempos enterrada no cano.

Quem com ferro fere, quem com ferro ferirá, esse era seu lema. Mas a dor pertencia só àquele sentente, que não suportava a idéia de se abrir aos amigos mais chegados. Para ele, era mais fácil fazer uso de uma lâmina e abrir o próprio peito do que revelar ao mundo o que tanto lhe acometia. Ninguém parecia ser tão confiável assim a ponto ser apresentado ao seu avesso. Só o velho bacamarte servia. Era a arma de combate e escudeiro da vida, mesmo com a ferrugem de quem hoje sucumbiu ao tempo e escolheu não mais cuspir fogo a torto e a direito por aí.

De camisa rasgada, calça larga e seu chapéu de hábito, ele se armou diante do imponderável: manter viva a lembrança daquilo que não quer mais ser memória. Fez da própria guerra seu alvo e mirou bem no centro do peito nu. De certa forma, estava ali o atirador fardado com a própria vergonha para travar a guerra com suas reminiscências.

E a arma antiga rasgou o silêncio da sala com seu estampido - junto do derradeiro tombo quando o corpo encontrou o chão. No peito, em vez do vermelho costumeiro, foi hasteada uma bandeira branca. Toda carga de cor foi em direção àquele homem sofrido, ungindo-lhe o coração com a ferrugem que constava no velho trabuco. Mas algo ainda ressoava ali dentro. Era o músculo que insistia em bater de tão forte que era, injetando certa dose de ferro naquele sangue cansado.

Não é que o danado do homem era ruim de morrer mesmo? Do festim do bacamarte veio a festa de um velho menino moço, que corria feliz por suas veias na companhia de um senhorzinho que sempre quis estar ao seu lado e não mais amedrontá-lo: o passado. E assim, mesmo ferido, ele sentiu uma leve ardência nos olhos e notou o primeiro instante da única vida que nesse mundo lhe foi dada.

20 comentários:

Anônimo disse...

nice blog isnt it?


loansrestructuring

camila disse...

Daniel que bonito texto.
A parte em que "ele se armou diante do imponderável: manter viva a lembrança daquilo que não quer mais ser memória".
Esta é uma luta válida e bonita!
Lindo!
Beijo
=)

Poeta Mauro Rocha disse...

Êta menino!! E os macacos querendo pegar Lâmpião!! Ótimo texto, boas lembranças não vividas, mas sentidas num ótimo texto.

Um abraço e ótimo fim de semana.

MAURO ROCHA

Dois Rios disse...

Você deixou o endreço da Velha Casa no Dois Rios e aqui vim retribuir o carinho da sua visita.

Adorei os seus escritos.

Vou voltar.

Beijo,

Beautiful Stranger disse...

gostei muito do texto, alguns trechos podem até ser 'trazidos' pra nossa realidade atual...

:)
http://strangerbeautiful.blogspot.com/

Clarice Lis disse...

Seu texto me tocou, senti seus sentimentos, tb tenho reservas com meu lado avesso. Adorei a bandeira branca hasteada no peito ... a paz invadiu o seu coração ...

Zek disse...

brava gente, tua casa sempre com coisas novas heimm!!!
Abs !!

Dauri Batisti disse...

Lindo texto. Mas digo com carinho, eu dispensaria o último parágrafo.
Coisas de leitor. Não ligue. Paraens.

Flávia disse...

Ai, Dan... que texto lindo! Fiquei sem palavras... pra completar, tava ouvindo Asa Branca, na voz do Zé Ramalho... seu texto fez morada na minha alma.

Lindo!

Beijos!

Camilinha disse...

*boquiaberta...


beijos daqui...

Luifel disse...

Kra,

Lendo o seu texto me lembro muito do personagem central do livro ''São Bernardo'' do Graciliano Ramos...esqci o nome dele agora, tu pareceu agora como se narrasse uma fala dele.

As vezes a gte se fecha tanto diante das nossas dificuldades, mágoas quando tudo q precisamos realmente é hastear a bandeira da paz e nos abrimos...

abção!

http://biblinotas.blogspot.com

Anônimo disse...

Como diz a Clarice, é preciso morrer para que nasça alguém em nós.
Lindo texto, menino Daniel.

Beijocas.

sinhã, a. disse...

bandeira branca: quero mais. :-)

Anônimo disse...

Olá... mto bacana seu blog....
voltarei mais vezes.

abraços e boa semana

Beatriz disse...

As lembanças podem ser, muitas vezes, o nosso pior inimigo. Enfrentá-las se torna um combate que, se bem resolvido, nos mostrará um novo ângulo da existência.

Atualizei a leitura, amigo, para mais uma vez constatar a preciosidade de teus textos. Gosto da forma como a vida é exposta por ti!

Ficam sorrisos, flores e estrelas, para enfeitar a tua semana. Um beijo no coração!

Tayná. disse...

as lembranças são tudo aquilo que os olhos não conseguem chorar.

Bárbara M.P. disse...

Você é muito talentoso, Daniel.Tem formação em Letras?
Os textos aqui são harmoniosos, criativos e têm muitos aspectos profissionais ... você é realmente muito bom no que faz, rapaz.
E essa tua casa vai longe.


Beijo
Bárbara

Maria Laura disse...

Belo texto!
Obrigada pela sua visita, lá no meu blog.

baú de relíquias disse...

"E assim, mesmo ferido, ele sentiu uma leve ardência nos olhos e notou o primeiro instante da única vida que nesse mundo lhe foi dada."

Belo, muito!!
Adorei seus escritos, linda sua casa!!!

Bjo doce!!

Ni ... disse...

Lindo teu texto... gostoso ler algo de tanta sensibilidade...

Beijo