23 outubro, 2007

Mercedes Baptista


Este tópico foge dos textos que vem sendo apresentados aqui, mas é por uma boa causa: ressaltar a iniciativa de uma escola de samba em abordar, no seu desfile, um personagem importantíssimo na interseção entre as culturas popular e erudita. Chama-se Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Teatro Municipal, que em 2008 será enredo da Acadêmicos do Cubango, pelo Grupo de Acesso A. O texto é de minha autoria e explica um pouco por que vale a pena, para mim, militar em prol do carnaval e das escolas de samba.




Mercedes Baptista: um passo de vanguarda no carnaval carioca

Sem muitas delongas ou rodeios: um enredo sobre Mercedes Baptista é de salutar importância para o carnaval carioca. A iniciativa da Acadêmicos do Cubango em evocar ao grande público a memória da bailarina negra traz à tona uma série de questionamentos que, imbricados, dão corpo e vida a uma reflexão sobre o atual modelo de desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro.

A começar pela importância de Mercedes na história do carnaval. Junto com os carnavalescos Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, ela introduziu, em 1963, com o enredo “Xica da Silva”, a ala coreografada: a clássica cena do minueto dançado com a Candelária ao fundo (foto abaixo). Hoje, discute-se se a teatralização em alas ou carros alegóricos é ou não a nova tendência nos desfiles na Sapucaí. Mas, naquele ano, a vermelha-e-branca da Tijuca desafiou os cânones da época ao trazer Mercedes como coreógrafa do palco do carnaval, fruto de sua experiência como primeira bailarina negra do Teatro Municipal carioca. Mercedes Baptista é, portanto, protagonista de uma concepção artística inovadora para as escolas de samba.



Aliás, a década de 1960 é tempo de vanguardas no carnaval carioca – e o Salgueiro tem participação fundamental neste processo. Primeiro, por estabelecer o diálogo entre o erudito e o popular com a chegada de pensadores da Escola de Belas-Artes no desenvolvimento do desfile. Depois, por inverter a lógica temática vigente e fazer do negro a estrela principal, cantado, homenageado e reverenciado pelos foliões. Este era um desafio grande a ser vencido, pois a idéia de “um dia se tornar rei na folia” vigorara forte no imaginário dos desfilantes, que não se viam trocando os babados da fidalguia pela ráfia ou chapéu de palha. E, por fim, ao reconduzir aos anais da história personagens até então confinados nos autos e registros de sua época, como Xica da Silva (1963, na foto) e Chico-Rei (1964).



Quatro décadas depois, a Cubango faz valer o prenome “Acadêmicos” que carrega em seu pavilhão ao romper com o modelo de enredos vigente, que buscam no patrocínio uma forma de se enquadrar ao luxo e à ostentação que, infelizmente, designam uma “grande escola de samba”. Bom desfile e sinal de título precisam ter, necessariamente, luxo e dinheiro? Com o enredo “Mercedes Baptista: de passo a passo, um passo”, do carnavalesco Wagner Gonçalves, a verde-e-branca de Niterói desafia as cifras em prol de um enredo digno e merecedor de aplauso e reafirma-se como uma agremiação de força antes mesmo de pisar a Sapucaí.

Com “Mercedes”, a Cubango resgata ainda a tendência introduzida pelo Salgueiro nos anos 1960, ao hoje inscrever na memória popular a vida e obra da mulher que é muito mais do que a primeira bailarina negra a pisar no palco do Municipal. Só esse fato já vale o enredo. Mas Mercedes Baptista vai além do seu “pas-de-deux”: ela militou contra o preconceito racial; reafirmou sua origem africana fundando uma companhia de dança afro; e, como citado, levou a erudição dos palcos para a ópera popular do carnaval, com a vermelha-e-branca tijucana.


Em poucas palavras, a escola de Niterói resgata a nobreza do negro no carnaval, manifestação popular cujas raízes estão fincadas na herança cultural vinda do tempo dos escravos. Aí reside a importância desta iniciativa da Cubango. Assim como o Salgueiro na década de 1960, a escola se mostra moderna e de vanguarda, pois apresenta um enredo que não se restringe a apenas uma biografia. Dois mil e oito ainda não chegou, mas a Cubango já prova que, por maior que sejam as intempéries de um enredo autoral no Grupo de Acesso, é possível resgatar não só a nobreza do negro na Avenida, mas a própria nobreza de uma escola de samba. É, portanto, mais que um reencontro com sua própria história, marcada por enredos afros importantes como “Afoxé” (1979), “Fruto do amor proibido” (1981) ou “O fruto da África de todos os deuses no Brasil de fé” (2005).




Ano passado, o Salgueiro fez valer o lema das Candaces – “É preciso olhar pra trás para ir pra frente” – para resgatar suas origens ao contar a dinastia das rainhas negras da Antiguidade. O resultado não correspondeu às expectativas de muitos, mas o desfile reafirmou a importância da vermelha-e-branca enquanto uma grande escola de samba no carnaval carioca. Hoje, é a vez de a Cubango cumprir esse papel, também olhando para trás visando ao futuro: a inédita ascensão ao Grupo Especial.

Difícil não pensar em que espécie de sentimento virá à tona quando a terceira escola pisar a Marquês de Sapucaí. Mas esta é uma preocupação que deve ser deixada para o sábado de carnaval (2/2). Melhor fechar os olhos e se deixar levar pelo belo samba-enredo-homenagem-e-tributo à vida e obra de Mercedes Baptista, Candace contemporânea, atual Xica da Silva do carnaval carioca:

"Jubà Ìbamolé"
Pro sonho dessa noite de magia
Abra as cortinas, Oh! Municipal,
Pra ópera do povo, o samba em sinfonia!
Onde houver a fé, o axé dos orixás - vitória!
Louvar a natureza, legado ancestral
Negra e verdadeira herança cultural
Viva em nosso carnaval

O violino com batuque do tambor
"Corta-jaca", Mondongo... me leva!
Ao "pás de deux" no jongo e entrechat no Congo
Início de uma nova era

O alvorecer
Dourava a corte em sua realeza
Salve a academia tijucana
Onde a negritude era nobreza
A mãe do balé afro com os pés no chão
Revela seu poder de sedução
Vai acontecer,
Florescer cultura popular
Na força dos heróis do novo mundo
A minha academia vai brilhar
O tão sonhado passo avançar

Baila
Vem fazer parte desta emoção
Teu manto verde e branco é tradição
Cubango, luz da minha vida
Mercedes Baptista
Divina tu és
Ponho a Avenida aos teus pés



Composição de Arthur Bernardes, Sardinha, Diego Nicolau, Junior Duarte e Carlinhos da Penha. (Gravação não-oficial)



5 comentários:

Diego disse...

Já tinha dito a você, emocionado, o quão valoioso é esse reconhecimento.
Um reconhecimento que começou com a escola quando, contra todas as regalias que o dinheiro porporciona, se definiu por esse enredo, e que hoje se estende a tantas pessoas.
Parabéns pelas palavras, irmão.
Um grande abraço!
Diego Nicolau.

Carlos Otoni Rabelo Paula disse...

Amigo!

Não canso de te agradecer pelas belíssimas lições "carnavalescas"!

Que lindo enredo, que história linda a da Marcedes Baptista!

Sem dúvida, isso vai dar samba...rs

Abraço!

J.P. disse...

"A minoria diz que não gosta mas gosta. E sofre muito quando vê alguém sambar. Faz força, se domina, finge não estar tomadinha pelo samba, louca pra sambar."
(Eu Sambo Mesmo - Interpretada por Roberta Sá)

Guilherme disse...

Primeiro: adorei conhecer a Mercedes!
Segundo: vc escreve muito bem!

abs

peixotoclarice disse...

Gostei muito do texto. As fotos são tão magnificas que gostaria de usar as 2 (rosto) da Mercedes Baptista no meu video sobre a Gisèle Omindarewa. Gisèle fala muito da importância e da convivência com o teatro da Mercedes e do Abdias. Peço autorização para inserir no video e, para isso, precisaria do nome completo do autor do texto e do fotografo que fez as fotos para incluir nos créditos.
Evidente que Velha Casa também constara dos créditos de agradecimento.
Como estou fechando o video nesta semana, solicitaria uma resposta rapida.
Obrigada,
Clarice Peixoto
antropologa, profa UERJ