28 novembro, 2007

De emoção


Para você:

Eu não sou muito de chorar. Não que seja insensibilidade de minha parte; aconteceu de uns tempos pra cá. Deve ser mesmo um problema fisiológico: simplesmente a lágrima não sai. Tento expurgá-la, mas nada acontece. Sistema nervoso, eu acho, com um quê de psicanálise, já que cortar cebola ou sentir cosquinha continuam deixando meus olhos marejados. Mas, por favor, não me tenha como um ser ártico. Esse é um conceito que, aos poucos, vem se mudando. Saiba que a sua chegada inesperada tem conseguido me fazer emocionar com cenas corriqueiras, ordinárias até. Uma música, a velhinha entrando no ônibus, a bala de R$ 1 no meu retrovisor, o sono da minha cachorra. Às vezes, pego meus lábios esboçarem um tremular qualquer só com uma única memória: a das suas palavras, sobretudo aquelas três raridades nem todo mundo as pronuncia em sua completude. E mesmo magrinha ou retida no primeiro obstáculo que encontra pela frente, a lágrima que me cai eu garanto: é de emoção.

Para mim:

E fez-se a lágrima vertida, finalmente. Já não era sem tempo. Afinal, não dava mais para forçar os seios da face para extrair um rascunho de gota. E, ainda sim, ela ainda fazia questão de escolher o seu destino sem prévia consulta – lado direito ou esquerdo. Hoje eu fecho os olhos e apuro meus sentidos para uma percepção quase involuntária: a do que se passa aqui dentro, pelas bandas de cá. Mas não tem nada daquele voyeurismo barato de buraco da fechadura. Faço tudo como manda o figurino dos bons costumes: bato três vezes na porta antes de entrar, limpo os pés no tapete, peço licença e me sento a observar. Lamento não ser ainda muito participativo, porque tudo me parece muito intenso ainda, e não se arranja um minutinho para puxar um assunto trivial. Também não encontrei pelo caminho um sinal vermelho qualquer para parar o trânsito desses meus sentimentos que voltaram à tona depois de tanto tempo estacionados. Pelo menos, dá para ver que a vida não fala sozinha, como há muito eu pensava. Ela pede a nossa atenção, mesmo convidando para entrar numa velha casa. Escutemo-la pois, porque eu não quero mais a vida nem estéril nem calada. E, diante disso tudo, posso lhe garantir: a lágrima que me cai é mesmo de emoção.

Um comentário:

Guilherme disse...

Muito oportuno. Nos dias de hj, de embrutecimento, sentimos falta do delicado balé da vida, cujos movimentos pendem de lágrimas, de sorrisos, de cada emoção que brota pura e verdadeira. Fica com meu abraço e meu apreço. Vou maturar tuas palavras e fazer certo esforço para voltar a sentir, sem fazer maior esforço!