04 dezembro, 2007

Calmante


O laço mais tenro se rompeu. Não tenho muito a dizer, talvez nem haja muito espaço para escutar. Diálogos para quê, se a autoridade quer avançar a grito, buscando alijar o passarinho que burilou suas próprias asas?

Tentei agir diferentemente desta vez. A voz estava plácida, mais serena e um pouco menos agressiva (muito embora o conceito de agressividade possa ser interpretado com diferentes juízos de valores). Mas a nobreza da minha postura, essa sim eu fiz questão de manter, em detrimento aos mandamentos que vão sendo apregoados de geração em geração.

Cresci com as paredes, vendo o sol pela janela. As decisões que com o tempo eu escolhi foram sem precisar perpassá-las por qualquer tipo de aval ou inquéritos. O amor eu encontrei mais tarde e quis compartilhar naquela primeira casa nossa. Pena que seus moradores preferiram o conforto dos seus calmantes, gozo fútil de quem só queria mesmo fugir do seu próprio câncer.

Sei que vocês vão continuar sentados sob o trono da frieza. Mas não se preocupem: não deixarei de passar por lá para reverenciá-los. Mas, por favor, só não esperem que eu suba sob suas ordens e tranque a porta do quarto, ameaçado pelo “Desça só amanhã”. Meu tênis já está lá fora, e estou calçando as meias. Estou à procura de uma nova velha casa para morar.

O respeito se manterá intacto, eu garanto. A todos nós, eu desejo o amor, fundamentalmente o amor, talvez o único que possa esboçar qualquer mudança nessa situação. Enquanto ele não bate às suas portas, continuem engolindo esse amor de vocês junto aos dois miligramas diários de Ocadil. Talvez isso lhes traga algum conforto.

3 comentários:

Carol Timm disse...

Daniel,

Gostei do texto e me lembrei de uma música do Chico:

"Eu bato o portão sem fazer alarde ...e a leve impressão de que já vou tarde..."

Beijos,
Carol

PS: Mas, "devolva o 'Neruda' que você me tomou e nunca leu"....

Vulgo Dudu disse...

Uau! Esse foi pesado, mas com palavras extremamente bem escolhidas. Sensacional!

Abs.

Carlos Otoni Rabelo Paula disse...

Amigo querido, há tempos não visitava essa velha casa, que agora quer mudar-se...
Entendo bem suas palavras, estas então, quase posso sentí-las.

Conselho? Mude-se!Da casa, das ordens, dos hábitos herdados, da tirania.
Só não mude você e nem suas palavras.

Abraço!