21 janeiro, 2008

Fissura


Sabe, senhores, quando o amor desencanta? Pois esta é a sensação que se apresentou a mim nesta noite. É bem verdade que ele já vinha a sinalizar sua chegada semanas atrás. Hoje, no entanto, ele resolveu dar as caras e fazer uso de toda cerimônia que lhe compete para estender seu tapete vermelho sobre um resquício qualquer de um sentimento sôfrego, há tempos tentando desafogar-se do seu próprio mar.

Já na entrada, estendo a mão ao desencanto, que trajava vestes nobres, como quem fazia sua primeira visita, ou então uma visita depois de muitos anos de ausência. O cumprimento foi uma resposta imediata à educação que me foi dada, tanto pelas tias da creche como pela mãe, atenta sempre quando lhe era possível.

A porta eu abri porque queria, primeiramente, conhecer tete-a-tete o tal desencanto e também saber quais eram, de fato, as suas reais intenções naquele momento. As palavras, com todos confortavelmente posicionados na sala, foram muito breves: “O encanto do amor é como a velha casa. Um dia, ela há de expor suas próprias fissuras”.

Não me restou outra alternativa a não ser seguir com a xícara de café, respirando profundamente sob a goteira de lágrimas que caia sobre o teto. E, claro, fitar o desencanto com certa deferência, por ter me apontado a fissura antes de uma demolição involuntária.



“Sou a alma
Sou a cara
Sou o retrato
Que retrata
O que na alma
Eu sou de fato”
[Arranco do Engenho de Dentro, 2006]

4 comentários:

Marco Antonio disse...

Forte é o amor que resiste a essas fissuras... Mais forte ainda é aquele que conhece antes e, com brio segue em frente...

J.Machado disse...

Daniel
É certo não querer amar para se evitar estes desencantamentos?
São doloridas as fissuras, algumas são de reparo complicado e lento.
Até hoje tento reparar uma.

Abração!

Carlos Otoni Rabelo Paula disse...

E qual a casa que não tem as suas fissuras? Mesmo embaixo de grosso reboco, elas estão lá, algumas reparadas, outras tantas só escondidas.

Como bem disse nosso amigo J. Machado, o reparo muitas vezes é dolorido demais.

Também estou na luta pra reparar uma fissura, e das grandes! rs.

Estamos aí, querido. Para o que der e vier, sempre.

anakessler disse...

E então a Rosa disse:
"Me faz um carinho?"
E ele:
"Não posso, sou um espinho"

Viu como também sou poeta?
Cicatrizes são tatuagens involuntárias, cultive-as, ame-as e elas dirão quem você é.
Beijos, querido, adoro o teu blog,
Aninha Kessler