23 fevereiro, 2008

De / Para

[Assumidamente inspirado no amigo Guiu Lamenha,
que me apresentou Clarice numa mesa de bar]


Prezada Clarice,

Há tempos queria lhe escrever algumas palavras, mas talvez não encontrasse o tom certo para essa primeira deferência. Sim, deferência, reverência, homenagem, tributo, sinal de respeito. Desculpe o certo constrangimento desta possível bajulação, mas seus textos (infelizmente, ainda conheço poucos) me são dignos de compreensão do ser humano. A começar por este quem vos fala.

Vejamos. Meu coração está perto de se tornar selvagem. Parece um trocadilho infame diante da riqueza de sua obra, mas é verdade. Selvagem. Noto que seu pulsar já não é tão brando e leve como antes, quando apreciava o crepúsculo e a aurora do horizonte com um ombro sempre a estar apoiado. Hoje ele bate quase como num atabaque ancestral, que fundamenta os sons graves quando percebe alguma situação a ele adversa – por mais ínfima que ela possa, na verdade, ser ou parecer.

Para, ao menos, me sentir um bom selvagem diante de algumas intempéries que só a mim são visíveis, eu durmo. Muito, indiscriminadamente até. Ah, Clarice, eu confesso: este é o momento de meu maior prazer. Minha mãe concorda comigo. Diz que prefere não me acordar porque meu semblante transpassa essa alegria de, por um momento, desligar-se do mundo por alguns instantes.

E ela tem razão. As mães, de certa forma, quase sempre têm razão. Quase. O problema, talvez, é que o sono vem se apresentado de forma desmedida, durante a tarde, depois do almoço, no curso do trabalho, ao encontro do amor, no pico da raiva. O olho pesa, quase sintomaticamente, em reação a qualquer centelha de sentimento que transpira na pele. Às vezes, simulo a voz sonolenta, mas isso é quando eu preciso, por cinco minutos, pedir licença deste mundo que tanto insiste em demandar.

Vejo isso como uma resposta automática do corpo que, por um momento, assume ser comandado por esse coração selvagem, prestes a tatear os extremos de uma reação à mente desconhecida. Sim, Clarice, descobri que nas bandas de cá a emoção sobrepuja a razão. Logo ela, tão absorta, tão nebulosa a mim durante tantos anos, sobretudo na adolescência imberbe.

De antemão, peço desculpas pelas palavras um tanto pesadas deste nosso primeiro contato. É como você mesma costumou dizer: “Eu me aprofundei, mas não acredito em mim porque meu pensamento é inventado”. Eu confesso a você: está difícil conter a emoção mesmo. Mais ainda é encontrar subterfúgios para mascarar essa emoção diante de uma platéia de dois ou três, que insiste em afirmar: “Está tudo bem com você, não vejo problema algum”.

De qualquer forma, espero ouvir no final os aplausos que sonhei desde criança, quando orquestrava o destino dos meus bonecos de plástico no quintal da velha casa. De preferência, assistindo a tudo sentado naquela mesma platéia, batendo palmas efusivamente junto ao público diante do espetáculo que acabou de cessar. No teatro, dizem que cada dia é dia, e que cada peça apresentada é única. Acho que é por isso que meu coração está à espera do fechar de suas cortinas vermelho-carmesim, no afã de que, como dizem por aí no popular, amanhã será um outro dia. Um novo dia.

Desculpe o tratamento mais íntimo ou informal, mas “senhora” não caberia nesta primeira tentativa de proximidade.

Fique bem.

Obrigado pela atenção,
Daniel


16 comentários:

Carol Timm disse...

Querido Daniel,

Clarice deve ter gostado muito de sua carta. De ouvir um pouco mais as palavras de teu coração sempre selvagem...

Eu gostei muito dessa sua primeira carta para ela, cheia de ansiedade...

Amanhã, no outro dia, outras emoções despertarão teu coração e novas cartas serão escritas e muito lidas.

A vida é sim, uma sucessão de dias únicos, mas cada dia uma nova chance de viver mais, sentir mais, amar mais... e escrever mais, é claro.

Beijos,
Carol

PS: Onde você e o Guiu acharam tão belas fotos de Clarice? Vou roubar... pode?! ; )

Anônimo disse...

Você é um sujeito ousado, escrever para Clarice... Meus parabéns!
Clarice para mim é uma deusa. Ela me descreve tão precisamente, como se me conhecesse desde antes de eu existir. Da superfície aos mergulhos profundos, ela não sabe não ser intensa.
Parabéns pela coragem!

Beijos.

[P] disse...

Acho que já disse aqui que AMO Clarice, não? É, acho que sim. Devoro tudo o que encontro dela pela frente e, dia após dia, uma frase dela me traduz inteira... e então você escreve para ela? Se eu tivesse esta idéia, um dia, viria aqui e ousaria tomar algumas frases tuas, perfeitas.

"Meu coração está perto de se tornar selvagem"... adorei isso. Parabéns, moço.

Beijos.

Guiu disse...

Querido meu, que lindo! E lembro exatamente do dia, entre chopps, no Leme, bairro em que ela viveu e morreu! Amei a carta! Que venham outras! Bjo

[P] disse...

Daniel, dono da Velha Casa, que gosta de Clarice e Los Hermanos, fiquei boba com o que você conseguiu fazer com um único [P]...

Beijos, moço :)

Jaya disse...

Daniel,

Texto lindo. E sou totalmente a favor de ousadias e intimidades com aqueles que conseguem nos traduzir em palavras. Clarice obviamente merece.

Eu ainda escreverei para García Márquez. E sonho que ele um dia me responda. Se não, as resposta encontro em suas palavras.

É simples.
E suave.

Um abraço.

Marco Antonio disse...

Cara, aquele trocadilho no começo... perfeito. Se essa carta fosse entregue à sua ilustre destinatária, certamente ela estaria muito emocionada.

Bárbara Matias disse...

Daniel...

Me vi falando com ela... e vc usou as palavras que devems er ditas a Clarice...

Que emoção, que sinceridade, que admiração, que belo!!! Descreveu-me quando disse da necessidade de escapulir desse mundo... de e viajar nas palavras!!!

Amei esse texto, essa carta!!!

Bjos...

Guilherme Côrtes disse...

tenho um poema chamado Clarice. é o nome que quero dar a minha filha, caso a tenha. talvez seja por ela, mas acho que não.
mas agora falando da Clarice que o texto trata mesmo, rs.
acredito que ela se sentiria lisongeada com essas palavras aí, é bom perceber na essência daquilo que se é construído uma sinceridade, honestidade. e é o que rola aí.
parabéns, Daniel. um abraço.

Filipe Garcia disse...

Eu já escrevi uma carta pro Pedro Bandeira e ele me respondeu... foi interessante, rs.

gostei desta frase: "Às vezes, simulo a voz sonolenta, mas isso é quando eu preciso, por cinco minutos, pedir licença deste mundo que tanto insiste em demandar."

profunda demais, verdadeira demais.

abraço!

Tudo ou nada ... disse...

Gostei muito do seu blog, super descontraído e gostoso de ler. Realmente a velha casa continua de pé.
Abração

ps: já te linkei

Tudo ou nada ... disse...

Gostei muito do seu blog, super descontraído e gostoso de ler. Realmente a velha casa continua de pé.
Abração

ps: já te

Mr. Ziggy disse...

Daniel,

Eu peço perdão pela rapidez com que li seu texto agora. Tenho aula jajá e meio que já fico de prontidão pra não me atrasar. E confesso ter um carinho muito especial pelo teu blog, pois ele é poético, profundo e me passa sensação de calma.

Portanto, em breve retorno á sua velha casa e lerei tudo com calma, porque você é digno de ser lido vírgula a vírgula, letra após letra, com calma, respeito, degustação. Você sem dúvidas não fica pra trás em relação à Clarice e é sempre um prazer vir nas bandas de cá, já que adoro ler-te.

Que Papai continue lapidando seus olhos, seu coração, sua mente e suas mãos, que quando resolvem se juntar, fazem poesias lindas. Abração, amigo!

Zy

Dauri Batisti disse...

Bonito texto. Há momentos em que não nos resta senão a velha carta para expressar sentimentos e afinidades. Especialmente se queremos falar à pessoas que só podem ser contactadas pelos caminhos do coração.

Obrigado pelas visitas ao essapalavra.

J.Machado disse...

Fala grande Daniel!
Desabafos com Clarice são quase que terapia.
Belo texto, sobretudo esta frase: "O olho pesa, quase sintomaticamente, em reação a qualquer centelha de sentimento que transpira na pele". Tem sido assim pra mim caro amigo.
Ah, moderar é preciso.
Abraço

Mr. Ziggy disse...

Daniel, eu agora pude ler-te com calma. Ah, eu acho bacana um leitor se emocionar com a obra de alguém e escrever para o autor da mesma dando um certo tipo de retorno. Isso para nós, que optamos por ter a arte como ofício (no meu caso, o Teatro e, futuramente, a música também) é absolutamente graticiante e encorajador!

E quanto ao trecho: "No teatro, dizem que cada dia é dia, e que cada peça apresentada é única."... Sem dúvidas, este foi o que mais me chamou atenção. Hehehe! Sou suspeito, pois ando "licenciando" e "bacharelando" em Teatro. E sim, o ele é exatamente isso: a relação entre ator e espectador que se dá no tempo presente, sendo de caráter efêmero. Não há repetecos!

Isso tem muito a ver com a Literatura, na forma em como o leitor recebe aquilo que ele lê...

Abração!