16 maio, 2009

Do fim ao começo

. Começo hoje pelo ponto final. É assim que sempre faço quando leio jornal ou revista: do fim para o começo. É assim que hoje lembro nós dois: desde que terminamos até a música que ouvimos juntos pela primeira vez. Hoje tocou no rádio. Ela dizia: "Case-se comigo". Meio precipitada para aquela ocasião, é verdade, mas serviu para nos dar o pontapé inicial. Já o chute final, este foi certeiro: deu burro na cabeça, de tanto que insistimos um no outro no afã de dar certo. Mentira. Tinha cá pra mim que agora, enfim, eu vivia um grande amor. Mentira de novo. Quem tem razão nesta história é o Chico, que não cansa de me recomendar: Não se afobe, não, que nada é pra já. Ele me pede silêncio na hora de esperar. Sim, meu caro amigo, eu lhe dou. Na verdade, não sei se o que lhe oferto tende mais para o silêncio do que para a resignação. Meu olhar fica perdido nessas horas, não escuto nem o vento, meu eterno companheiro. Ontem foi ele quem me levou à cama. Me deu um livro para ler antes de o sono dominar a cena. Era do Guimarães, um de poesias raras que tive a sorte de encontrar por acaso numa livaria. Num dos poemas, que arrisco em intitular "Saudade", ele diz: "Tenho saudade de gente que eu não conheço". Eu também. Sinto muita. Ando de carro pela cidade, passo pelos bares, como eu gostaria de brindar naquela mesa. Eu até digo "Saúde" sem me importar muito com o buzinaço que vem da frota de trás. Arrisco parar, saltar, flanar... Mas chega ao fim desanimo. Não quero que me tenham como sozinho. Minha timidez é outro entrave. O palavrório que guardo na munição não é suficiente para tapar toda a vergonha estampada no rosto. Sim, me escondo na extroversão das palavras e dos gestos. Herança italiana, no fundo uma vontade embrionária de ser ator. Sou performático. Atesto para o mundo minha autenticidade forjada. Preciso de aplausos. Não tem problema se vierem na forma de risos. É a consagração da plateia. É meu momento. Hoje estava sem a mascara. Era hoje a alma, "a cara, o retrato que retrata o que na alma eu sou de fato". Sou assim todo dia. Eu sou meu próprio tablado,m esmo diante de um espetáculo solo, monólogo clássico dramático, realismo mágico para encarar a vida com certa leveza e encantamento. É o que preciso. Tudo tem estado meio sem graça, meio sem ritmo. Por isso, as palavras desnorteadas .

2 comentários:

Carol Timm disse...

Daniel,

Você está numa fase minimalista, eu diria.

A única diferença é que começaria com um ponto final e lá no final da página em branco colocaria as reticências...

Beijos,
Carol

Toni Rabelo disse...

Já comecei muita coisa pelo ponto final e, seguindo a idéia da Carol, terminei com as reticências. Incrivelmente algumas deram certo.

O melhor desse texto é o desnorteio! A gente começa pelo ponto final, brinca com as músicas lindas, fica sabendo da sua timidez, de alguns sonhos secretos, e termina totalmente com graça, totalmente com ritmo.

Tá vendo, é bem aquilo que conversamos: cortando palavras e mandando o recado.

Não seria mágico que todo mundo entendesse isso? rs

Beijo grande.