20 maio, 2009

Seca


Os olhos já não vertem mais lágrimas como antes. Na cortina branca que encobre as duas janelas da velha casa, perto da joia azul mantida no epicentro de minha pequena galáxia, surgem rios venosos, de cor predominantemente vermelha. São reveladores talvez de uma terra árida, hemorragia seca, gritando por um bocado de água. Geralmente acontece mais à noite, no fim de mais uma jornada rumo ao encontro de alguma nascente sequer, mas não tem uma gotinha pra contar história. Tudo se esgotou perto dali. Já beberam da fonte, muitas das vezes de forma indevida. E sem cachoeira de antes, que jorrava solta nos momentos mais inesperado, o menino heróico foge assustado pela mata adentro. Busca em outras bandas aquilo de que hoje mais precisa: o acalanto das águas. Mar para ele não serve: tem sal demais. O pequerrucho precisa de um pouco de doçura na vida. Anda um tanto amargo demais. Nessas horas, a avó ensina que não tem muita alternativa: em vez de se esgueirar por aí de galho em galho, o jeito é trocar os pés pelos joelhos, firmar ponto na aridez desse chão que lhe resta e esperar para ver se, quem sabe, o céu se compadece do seu lamento. De fato, há certa esperança no nativo. Por enquanto, é isso que tem lhe bastado durante esses dias difíceis.

3 comentários:

Toni Rabelo disse...

Sempre há esperança, sempre há...

E mais, esse tempo anda bastante instável, não acha?
Quem é que sabe se não chove? Talvez essa semana?
E quem é que sabe também se depois da chuva não vai aparecer um sol amarelinho amarelinho?

Mysterious Ways disse...

de fato, tudo anda muito amargo mesmo...

Juliana disse...

Talvez a seca precise é beber a água dos olhos.